O Presidente da República defendeu esta quarta-feira o relançamento industrial, apontando a «indústria do futuro» como uma atividade capaz de conciliar as dimensões económicas, ambientais e sociais, e repetiu o apelo ao investimento na investigação e desenvolvimento.

«A indústria do futuro deve ser (...) uma atividade produtiva capaz de conciliar as dimensões económicas, ambientais e sociais do desenvolvimento sustentável. A produção industrial deverá basear-se numa utilização mais eficiente da energia e dos recursos naturais, com uma atenção mais responsável à segurança e à qualidade dos produtos e à sua relação com o ambiente», afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, no encerramento do IX Encontro da COTEC Europa, que decorreu na Fundação Champalimaud, em Lisboa.

Rejeitando um regresso à indústria do passado, «à visão obsoleta e saudosista das grandes indústrias pesadas, de baixo valor acrescentado, com um uso intensivo de energia e recursos naturais, com uma relação precária, ou mesmo nociva, com o ambiente e com a qualidade de vida das populações», o chefe de Estado reiterou a necessidade de investir em «Investigação&Desenvolvimento», notando que as empresas que o fazem são aquelas com maior sucesso.

Falando perante o seu homólogo italiano e o rei de Espanha, o Presidente da República focou a situação dos países do sul da Europa, alertado que um menor investimento em inovação conduziria ao agravamento do défice tecnológico das empresas das economias do sul, que se situa em cerca de 20 por cento face à média da União Europeia.

«Há que evitar o enfraquecimento das políticas de Investigação & Desenvolvimento, porque tal significaria, a médio prazo, reduzir a eficiência dos sistemas de inovação e alargar o fosso que nos separa dos países mais competitivos da União Europeia», referiu, insistindo que para competir com países que têm vindo a intensificar a aposta em áreas tecnológicas de elevado potencial de crescimento, não se pode continuar a reduzir o investimento na produção de conhecimento e desenvolvimento tecnológico.

Na sua intervenção, Cavaco Silva fez ainda um apelo à aposta nas novas industrias e industrias criativas, considerando que o novo quadro financeiro Europeu, os fundos comunitários devem contemplar o relançamento industrial, com políticas europeias atentas às necessidades específicas dos vários Estados-membros.

Lembrando que grande parte das empresas portuguesas economicamente viáveis, em particular as PME, «tem enfrentado custos financeiros desmesurados», com as empresas exportadoras a suportarem encargos de juro muito superiores às suas congéneres europeias, Cavaco Silva alertou igualmente para a necessidade de, «face à fragmentação que se verifica na no mercado financeiro europeu», concretizar de forma urgente, à escala da União Europeia, de «novas fontes de financiamento não-bancário».

Além disso, continuou, o esforço de reindustrialização tem de ser acompanhado por uma política comercial comum da União Europeia mais eficaz e mais exigente, caso contrário dificilmente existirão efeitos visíveis no crescimento da economia e na criação de emprego.

A um nível mais global, o Presidente da República reforçou a necessidade da União Europeia defender os seus interesses de forma «mais rigorosa e integrada», quer no quadro da Organização Mundial de Comércio, quer através de parcerias de cooperação com outras regiões do mundo.

«É essencial que o "free trade" seja também um "fair trade". Se o comércio mundial não for leal, nunca será verdadeiramente livre», vincou.

Já no final do seu discurso, Cavaco Silva destacou a nova iniciativa da Comissão Europeia para uma estratégia industrial, integrada na «Estratégia Horizonte 2020», reiterando que «continuar a investir no incremento do conhecimento científico e tecnológico e na sua difusão à economia deverá ser uma prioridade».