A candidata presidencial apoiada pelo Bloco de Esquerda, Marisa Matias, defendeu nesta terça-feira que "o país tem de mudar", criando condições para que "mais ninguém seja forçado a emigrar".

Falando no Luxemburgo, e depois de manifestar a esperança de que "a moção de rejeição passe e que o Governo (de Passos Coelho) caia", a eurodeputada disse que "as três condições básicas" do BE para apoiar um Governo de esquerda - que incluem "a proteção do trabalho, a defesa dos salários e a defesa das pensões" -, são necessárias "para que mais ninguém tenha de emigrar".

"Se continuarmos neste caminho, não mudamos as condições reais do país e, portanto, as pessoas vão continuar a ter de sair, não por que queiram, mas porque são obrigadas", sustentou.

A eurodeputada falava na primeira sessão pública após o anúncio da candidatura às presidenciais, um encontro com emigrantes portugueses no Luxemburgo organizado a convite do partido luxemburguês "Déi Lénk" ("A Esquerda"), com quem o BE tem acordos.

No encontro, a candidata do Bloco afirmou que "a principal motivação" da sua candidatura à Presidência da República "é defender o país e a dignidade do povo português, viva ele em Portugal ou fora de Portugal".

Marisa Matias, que visitou várias vezes o Grão-Ducado para se encontrar com emigrantes portugueses ameaçados de expulsão das habitações sociais - um caso que a levou a questionar a Comissão Europeia, em 2013 -, disse ainda que tem "uma ligação afetiva com o país", onde o pai trabalhou nos anos 70.

"Tenho razões afetivas que me ligam ao Luxemburgo, porque o meu pai foi emigrante aqui, foi trabalhador da construção civil", contou a eurodeputada, defendendo que "o Luxemburgo deve muito aos portugueses", que constituem "uma grande parte" da mão-de-obra no país.

A também vice-presidente da Comissão Especial TAXE do Parlamento Europeu participa quarta-feira no Luxemburgo numa reunião extraordinária do Grupo da Esquerda Unitária Europeia (GUE/NGL) para discutir as conclusões do relatório sobre o caso Luxleaks, que revelou acordos fiscais entre o Luxemburgo e mais de 300 multinacionais para reduzir o valor dos impostos a pagar.

"Por ano perdem-se cerca de 190 mil milhões de euros em acordos fiscais, o que é considerado legal, mas é absolutamente imoral", sublinhou a eurodeputada.

"Se as empresas não pagam impostos nos países onde fazem os lucros, esse dinheiro não chega às contas de Portugal e de outros países, e é dinheiro que não existe para financiar as contas públicas", acrescentou, apontando que o problema não acontece só no Luxemburgo.

Segundo a eurodeputada, "19 das 20 empresas portuguesas cotadas no PSI-20 pagam os impostos na Holanda, e depois vêm dizer que 'o que é nacional é bom'".

Um ano depois do escândalo LuxLeaks ter vindo a público, em novembro de 2014, Marisa Matias disse que "ainda há muito por fazer" para combater "a evasão fiscal".

"Os Estados vão ser obrigados a disponibilizar informação sobre os acordos fiscais, mas a nossa luta principal é que ela fosse de acesso público, e isso não vai acontecer", lamentou a eurodeputada, defendendo que é preciso "mudar a legislação para que estas práticas deixem de ser legais e se encontrem bases mínimas de taxação" nos países onde as empresas têm lucros.