Muitos militares dos três ramos das Forças Armadas, muitas figuras do Governo português, muitos jornalistas, alguns turistas e menos angolanos do que se esperaria para uma visita de Estado de José Eduardo dos Santos a Portugal. A Praça do Império fechou-se cedo ao trânsito. A polícia selou o acesso aos Jerónimos, mas a chegada do presidente de Angola foi recebida com circunstância, mas sem entusiasmo.

Uma hora antes da chegada do chefe de Estado africano ao local onde Lisboa costuma acolher governantes estrangeiros, era mais difícil para um jornalista conseguir chegar ao pequeno palanque situado em frente à tribuna de honra do que passear ao longo do perímetro de segurança policial.

Previa-se mais gente à espera de Eduardo dos Santos. Pelo menos a julgar pelas cerca de 100 credenciais que foram emitidas para órgãos de comunicação social. Uma centena seriam também as pessoas que se reuniam em frente aos Jerónimos. Não mais do que aquelas que andariam distribuídas pela praça num dia normal ensolarado como esta terça-feira.

Uma questão delicada

Discreto mas algo curioso, António José, 40 anos, natural de Luanda, mostrou-se reticente em prestar declarações ao TVI24.PT. Acabou por ceder. «Como todo o angolano sou admirador do nosso presidente. O que me traz cá é o facto de ele vir cá ver-nos».

Ao lado de António, mais turistas que conterrâneos seus. Mas o aparato acabou por atrair um casal de luso-angolanos. Jovens. Ele 20, ela 21. Estudantes de arquitectura estavam «a passar» por ali. «A faculdade é aqui ao lado e nós apercebemo-nos disto e viemos para aqui», disse Jaqueline Madaleno. António Proença assentiu com a cabeça e acrescenta: «Estou ansioso por ver os dois presidentes».

Ele sublinhou que apesar das diferenças culturais «há muitas coisas parecidas entre os dois povos». «Gostava que Portugal e Angola fossem mais unidos, que dessa amizade surgisse algo melhor». Mas quando se fala de política, tal como António José, ambos preferiram não se alargar.

«Isso é muito complicado. Só quem vive lá e que acompanha a situação é que pode responder. É uma questão muito delicada», apontou Jaqueline. Para depois corrigir a trajectória. «Ele é um grande homem. Não sei se houvesse uma mudança as coisas seriam diferentes».

Pouco depois desta conversa, chegava Cavaco Silva, às 11:55, como indicava o protocolo. José Eduardo dos Santos esticaria o seu horário 15 minutos para lá das 12:00. «Motivos de segurança», avaliava um jornalista angolano. Mas os dois presidentes acabariam por ouvir os hinos e fazer a revista às tropas sem problemas.

À sua frente, serpenteava uma única bandeira angolana visível para lá das barreiras policiais. Maria José Ferreira, de 65, segurava uma das suas pontas. «É uma visita muito significativa para os dois povos», disse. «Sou filha de um português, sou filha de uma angolana. Estou dividida. Nasci sob a bandeira de Portugal, estudei a história de Portugal. Por isso a minha felicidade é ver uma relação óptima entre os dois países. Mas de política não falo».