Vítor Gaspar primeiro estranhou-se, depois entranhou-se e depois detestou-se. O ministro das Finanças, agora de saída, até caiu no goto dos portugueses quando chegou ao poder. O currículo de teórico e a ausência de imagem pública deram a Vítor Gaspar um estado de graça que aos poucos foi decaindo. Considerado como um «trunfo» de Portugal no plano europeu foi internamente acusado de trabalhar para a troika. Gaspar resistiu a dois Orçamentos do Estado (OE) e a muitas críticas no seio do Governo. Deixa o Executivo, abrindo a porta a um novo caminho no Governo de Passos Coelho.

Quando o país marcava um ano de Governo e apesar da austeridade, Portugal estava ainda a caminhar para aquele que ficaria conhecido como o OE que introduziu um «enorme aumento de impostos». Talvez por isso, à época o desempenho do Governo foi considerado mau, mas da sondagem de junho de 2012 sobressaía o facto de Vítor Gaspar ser, para os portugueses, o ministro com melhor desempenho.

O estilo calmo nas palavras e a firmeza na escolha de um caminho surpreenderam e Vítor Gaspar conseguiu impor as política de austeridade não só ao país, mas também dentro do Executivo. Em Outubro de 2012, já depois do chumbo do TC ao primeiro OE de Gaspar e do desaire da TSU, anunciada ao país pelo primeiro-ministro, o ministro das Finanças apresentou o OE que lhe ditou o destino.

O documento foi aprovado, mas a contestação ao ministro subiu de tom, com a oposição a pedir a demissão. Os elogios vindos de Bruxelas, quer ao ministro, quer ao desempenho do país na aplicação do memorando de entendimento, deram o benefício da dúvida ao ministro. Vítor Gaspar aguentou, mas aos olhos dos portugueses as declarações de que Portugal era «o melhor povo do mundo» desagradaram a cada vez mais eleitores.

Apesar dos vários pedidos de demissão e da contestação nas ruas estar em crescendo, Vítor Gaspar conseguiu passar o ano. Mas foi chegados a fevereiro de 2013 que muitos dos que até então defendiam a credibilidade e reputação internacional mudaram o tom do discurso e a onda de críticas cresceu. O «ponto de viragem» ocorreu depois de Gaspar ter feito «uma grande pirueta» e revisto em baixa as projecções macroeconómicas para 2013.

Os erros nas previsões aumentaram o descontentamento sobretudo dentro da coligação. Se muitos anteviam a saída do ministro aquando da revelação trimestral dos dados de execução orçamental, outros garantiam que seria depois de conhecida a decisão do TC. Chumbado mais um OE feito pelo punho do ex-consultor do banco de Portugal, o ministro pediu mesmo a demissão, mas a ida à Belém, vista por muitos como um aval de Cavaco Silva à política de austeridade, segurou, mais uma vez, Gaspar.

O ministro estava aparentemente com a posição consolidada, pelo menos, até à discussão do próximo OE, no entanto, as críticas dentro da coligação, nomeadamente, do CDS-PP, que chegou a defender publicamente a saída do ministro e do próprio Paulo Portas que terá ameaçado romper a coligação, cercaram cada vez mais a margem de manobra das Finanças.

Mais recentemente foi o desconforto chegou ao seio do PSD. A aprovação no Parlamento, pelos grupos parlamentares da maioria, de medidas de incentivo à economia do PS, depois de terem sido contestadas pelas Finanças, terá sido uma das gotas de água num copo que já ameaçava transbordar.

Antes, Vítor Gaspar tinha já tentado minimizar as falhas, admitindo que errou e considerando até uma baixa de impostos. Mas declarações como «a culpa do fraco investimento é do mau tempo» acentuaram, aliadas à aproximação de eleições autárquicas, a necessidade de imagem renovada dentro do Governo e do próprio PSD.

Portugal perde o ministro das Finanças que governou o país num dos períodos económicos mais difíceis. Mesmo na hora da saída, e apesar do desgaste, muitos são os que defendem que esta é uma perda para o país e elogiam o rigor daquele que para uma grande maioria se tornou no «erro colossal» do Governo PSD/CDS-PP.