Um azar nunca vem só. Poderá ter sido este o pensamento do Governo ao perceber que para além da crise que implodiu no seio do Executivo tinha também entre mãos um incidente diplomático ao mais alto nível. Por azar, logo com a pasta dos Negócios Estrangeiros, que por estes dias está demissionária e a roçar a não existência. Afinal, não estivesse a coligação a dar as últimas e teríamos tido Paulo Portas a tomar as rédeas da polémica que envolveu o avião do Presidente boliviano. É caso para dizer, um país sem Governo dá nisto.

Em Portugal, as explicações são ainda escassas. Não se sabe ao certo quem deu a ordem de proibição na aterragem do avião presidencial de Evo Morales, mas o MNE português depois de ter demorado a reagir, adiantou que tudo se deveu a considerações técnicas. Contactado pela TVI, o ministério dos Negócios Estrangeiros lamentou, mas não pediu desculpa, reiterando os laços de amizade com os países da América do Sul. O porta-voz do MNE justificou ainda que Portugal «não interfere na posição de cada país relativamente ao caso Snowden».

A proibição de aterragem do avião, que deveria fazer escala em Lisboa, surgiu 10 minutos depois da TVI ter noticiado a demissão de Portas. Apesar de não ter sido aceite e o ministro estar ainda em funções, a «temperatura do dia» abre muitas dúvidas sobre a origem da ordem. Não se sabe se a decisão partiu do próprio Portas demissionário, mas o Parlamento Europeu já afirmou que quer saber a origem da proibição. Schulz, considerou «ridículo e inaceitável» o tratamento dado ao Presidente da Bolívia e afirmou que se devia saber «quem deu as ordens».

Em Portugal, o tema é assunto de segundo plano. Apesar da gravidade, sustentada na posição do Parlamento Europeu, na queixa contra Portugal na ONU e na exigência de um pedido de desculpas público, por parte dos seis países membros da UNASUR, o ainda Governo já confessou não ter sequer discutido o tema.

«Não foi um assunto que tenha sido tratado, abordado sequer no Conselho de Ministros, nem o teria necessariamente de ser», declarou o ministro da Presidência, Luís Marques Guedes. «Não houve nenhuma informação particular relativamente a esse episódio», acrescentou, alegando ainda desconhecer a origem da ordem. As diferenças de abordagem diplomática do caso em comparação, por exemplo, com a França mostram as atenções desviadas em Portugal. Em França, foi François Hollande quem deu a cara pela polémica declarando: «A partir do momento em que soube que se tratava do avião do Presidente da Bolívia, dei, de imediato, a minha autorização». Terá Passos chegado a saber?

As «desculpas» de Hollande não foram o suficiente para acalmar os ânimos, especialmente porque o ex-espião não ia a bordo do avião. Em La Paz, atiraram-se pedras contra a embaixada francesa, gritaram-se palavras de ordem contra os EUA e queimaram-se bandeiras da União Europeia.

Os EUA são acusados de ter solicitado a proibição aos países europeus, mas já descartam responsabilidades, alegando que as perguntas devem ser feitas aos países envolvidos. O MNE espanhol também já se pronunciou sobre o caso e disse que só agiram por ter chegado a informação credível de que Edward Snowden estava a bordo do avião. Mas José Manuel García-Margallo recusou esclarecer a origem da informação. Tal como Portugal, Espanha não assume um pedido de desculpas.

Ao contrário de todas as expectativas, os contornos sobre o incidente diplomático podem ainda vir a ser explicados pelo próprio Paulo Portas. O PCP solicitou a presença do ministro demissionário, mas não exonerado, no Parlamento para dar explicações. Com a crise política em «stand-by», uma vez que a audição dos partidos políticos em Belém ainda estará a decorrer na próxima terça-feira, Portas poderá ter mais este «azar» para lidar, antes de irremediavelmente sair de cena. Ou não.