Para quem tem de «pagar as contas» ao fim do mês, o voto para o Parlamento Europeu é «a última» das preocupações, frisa a eurodeputada portuguesa Inês Cristina Zuber.

Em declarações à Lusa, à margem de um seminário para jornalistas sobre igualdade de género e representação política feminina, em Bruxelas, a eurodeputada comunista reconhece que é preciso «fazer-se a ligação entre aquilo que é a vida das pessoas, concreta e real» e o que «é decidido» a nível europeu.

É preciso, sustenta, «descodificar» os «grandes palavrões» da linguagem comunitária, como «consolidação orçamental», explicando, por exemplo, os efeitos que esta terá nos centros de saúde, nas pensões, nos abonos de família.

Organizado conjuntamente pelo Parlamento Europeu e pelo Centro de Jornalismo Europeu, o seminário, que reúne uma centena de jornalistas dos 28 Estados-membros, propõe-se debater, esta quarta-feira, a questão «As mulheres e as eleições: desta vez será diferente?»

Inês Cristina Zuber acredita que «a melhoria das condições económicas» das mulheres favoreceria uma maior «consciência política, mais que não seja porque elas teriam tempo para fazer outras coisas que não seja, por exemplo, estar a cuidar da casa».

Contrariando o argumento de que as mulheres estão «menos interessadas na política porque há menos mulheres na política» e que, se houvesse mais, o seu interesse aumentaria, a eurodeputada comunista frisa que também não se pode dizer «que as mulheres não querem participar» politicamente. «Isso não é bem assim, as mulheres às vezes têm mais que fazer», contrapõe, defendendo a criação de «condições» para aumentar o envolvimento feminino.

Ora, sendo «verdade que há mais homens que mulheres», tal não chega para que Inês Cristina Zuber defenda «mecanismos artificiais», como as quotas, que não anulam «a discriminação de base que recai sobre a grande maioria das mulheres».

Quando questionada sobre a falta de paridade nas listas de candidatos às próximas eleições europeias, agendadas para maio, a eurodeputada defende que partidos devem ter «a liberdade» para decidir o que fazer, mas descarta que as quotas possam ser a solução.

As quotas «não vão acabar com a desigualdade que as pessoas com menos recursos têm para aceder à participação política», podendo, ao contrário, «mascarar o problema», fazendo «de conta que já existe paridade, quando no concreto e no real da sociedade continua a haver discriminações», reflete.

«Cada partido deve, se tem sensibilidade, fazer listas paritárias. Cada partido é livre de escolher o número de mulheres e de homens» para as suas listas, vinca, recordando que o PCP apresenta «listas paritárias de 50/50».

Mas os partidos políticos «não têm de ser obrigados a dar esse sinal», sustenta, colocando a tónica na «vontade política» e na «sensibilização».

Nas instituições europeias, «fala-se muito» sobre igualdade de género, «mas depois aplica-se pouco na prática», observa a eleita comunista. «É importante que as mulheres sejam ouvidas, é importante nós darmos oportunidades às mulheres independentemente de elas às vezes não se conseguirem promover da mesma maneira do que os homens», defende.