O primeiro-ministro afirmou, esta sexta-feira, que aqueles que «não ajudaram» à superação da crise deviam agora «dar a mão à palmatória» perante os resultados alcançados pelo país.

«Todos aqueles que durante três anos não só não ajudaram à concretização destes objetivos, como disseram frequentemente que o caminho que traçámos era errado, deveriam dar hoje a mão à palmatória e reconhecer que não é apenas um fruto do acaso termos conseguido cumprir esta missão histórica, é sobretudo fruto do esforço de todos os portugueses que colocaram também eles Portugal acima de tudo», disse, na abertura do debate quinzenal com o Governo no Parlamento.

Sem nunca nomear destinatários, Passos Coelho criticou os que, ao longo de três anos em que Portugal teve de enfrentar a «mais grave crise financeira, económica e social de que há memória em democracia», não contribuíram para um «verdadeiro espírito de compromisso» e os que criaram obstáculos «de natureza jurídico-constitucional» que obrigaram o executivo a «estar em permanência a substituir medidas», gerando um «nível de incerteza e ansiedade» na sociedade.

No balanço que fez da atuação do Governo ao longo da aplicação do programa de ajuda externa a que o país esteve sujeito nos últimos três anos, Passos começou por lembrar a «avaliação positiva» feita pelos credores dos resultados alcançados por Portugal, que permitiram ao país libertar-se do resgate sem a necessidade de uma «linha cautelar».

Mas o primeiro-ministro destacou ainda as «transformações» operadas pelo executivo que a discussão sobre as medidas de austeridade «tendeu a ocultar». «Uma lista muito completa de transformações, desde o mercado de produto ao mercado laboral, desde a concorrência à justiça, que permitiu que Portugal possa ser hoje encarado pelos investidores externos como uma economia mais atrativa para o investimento, para o crescimento e para a criação de emprego», apontou.

O chefe do Governo reconheceu depois as «graves consequências de recorte social», causadas em grande medida pela circunstância específica em que Portugal teve de realizar o seu ajustamento. «Portugal em 2011 estava no pior dos mundos, com uma elevadíssima dívida pública e privada (...) Portugal teve de fazer face a um ajustamento que ao mesmo tempo obrigava o setor privado e o setor público a ajustarem em simultâneo», justificou.

Passos Coelho defendeu, contudo, que em Portugal foi possível «preservar a coesão social», o Estado social e que o esforço realizado «foi distribuído de uma forma muito alargada por todos os setores e por todos os portugueses de forma o mais equitativa possível».

«Os sacrifícios que realizámos foram distribuídos com grande equidade (...) Sabemos que cumprimos o essencial das nossas obrigações. Sabemos que o período que agora se encerra abriu muitas feridas e não ajudou à correção das injustiças na distribuição dos rendimentos na sociedade portuguesa», defendeu.

Carta ao FMI

Em resposta a uma intervenção do líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Magalhães, Passos Coelho apontou como exemplo de uma oposição «zangada» e «desesperada» a exigência de divulgação da carta de compromissos como FMI.

«Agora que atingimos uma situação de maior conforto e credibilidade para poder prosseguir, não em recessão, mas em crescimento, está a oposição desesperada. E então o que pede a oposição? Que a gente revele a carta que vai mandar para o FMI, sabendo que é das regras do FMI que essas cartas são divulgadas a seguir à avaliação que o fundo faz na reunião do seu 'board'. Sempre foi assim e será assim», disse.

«Nunca se preocuparam com nenhuma das cartas anteriores, porquê agora? (...) Pedem aquilo que sabe que o Governo não pode dar. É fácil fazer política assim», denunciou.