À parte do tom vingativo com que Angola insiste em escrever-nos, à parte da indignação que nos atinge a todos, e sobretudo à parte do regime angolano, Angola tem razão.

Angola tem dinheiro, Portugal não. A ex-colónia cresceu e já não é mais um adolescente rebelde e meliante. É um adulto manhoso vindo das escolas de bairro, mas com muito mais poder para fazer frente aos colegas de liceu de bairro fino.

Dos editoriais, ultimamente diários, chega-nos o discurso: «Temos pena, temos dinheiro e vocês não. Venham lá agora dizer que são um império». A afronta entranha-se nas entranhas do orgulho nacional e cega-nos.

Mas no fundo, Angola parece simplesmente ter perdido a paciência para o que em Portugal é ainda tolerado: as violações do segredo de justiça e a morosidade das investigações.

Segundo o Diário de Notícias, as razões do mau estar angolano estão, por um lado, no facto de só terem sido conhecidos os nomes dos 13 angolanos em investigação pela justiça portuguesa e não os nomes dos 26 portugueses que foram também denunciados. Dos portugueses fazem parte empresários, desde banqueiros a gestores de topo, em áreas como energia, banca, advocacia e construção civil que têm mantido relações de proximidade com Angola.

Por outro lado a crispação angolana, que levou a rutura da cooperação estratégica, encontra as suas razões na morosidade da justiça portuguesa em resolver o caso. Fonte diplomática angolana, citada pelo DN, explica: «Foram prestados todos os esclarecimentos e mais alguns, só que, aparentemente, o Ministério Público está à espera de investigar toda a gente para arquivar ou acusar», disse, salientando, que «só se fala nos angolanos» e que «enquanto não há decisão», os governantes angolanos já foram condenados publicamente».

Onde é que já vimos este filme? Não pode mesmo Angola ficar chateada com a justiça portuguesa? Como seria se fosse um país europeu a criticar a justiça nacional? Eu respondo. Portugal acobardava-se e deixava-se enxovalhar mundialmente como está a acontecer com o renascer do caso Maddie e a campanha dos «amigos ingleses» que têm como único objetivo vingar a afronta que o país teve em, um dia, suspeitar de cidadãos britânicos.

Todas as condenações ao regime angolano não legitimam as falhas constantes, habituais e rotineiras da justiça portuguesa. Das violações do segredo de justiça às, muito denunciadas, faltas de meios na Justiça para dar celeridade aos processos judiciais.

Dirão: não são as falhas judiciais que realmente irritam os angolanos. Talvez. Mas isso não justifica a sua existência, nem a nossa indignação.

Angola tem razão.