O ex-primeiro-ministro José Sócrates considerou hoje que a crise política deixou um rasto de degradação institucional em Portugal, deixando o Governo mais desgastado, e frisou que ao PS cabe-lhe ser alternativa e representar quem discorda do executivo.

A posição foi assumida pelo ex-líder socialista no seu espaço de opinião semanal na RTP, pouco depois da comunicação ao país do ex-Presidente da República, Cavaco Silva, em que decidiu conservar em funções o Governo PSD/CDS até ao final da legislatura, «com garantias reforçadas de coesão».

«Esta crise política deixou um rasto de degradação institucional que não se pode ignorar, principalmente para o Governo e, de certa forma, para o Presidente da República», defendeu José Sócrates.

Na perspetiva do ex-primeiro-ministro socialista, a solução agora apresentada pelo chefe de Estado deixa o executivo PSD/CDS «numa situação ainda mais débil do que aquela em que antes estava» e «há uma degradação da credibilidade das instituições» no país.

«O Presidente da República anunciou que terá uma maior vigilância sobre o Governo e que não desiste de nenhum dos seus poderes constitucionais. Não era preciso dizê-lo, mas ao dizê-lo está a avisar. Depois de o Presidente da República ter ele próprio lançado reservas sobre a solução [governativa] que lhe foi apresentada [pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho] e ao fim de dez dias dizer que se rende, que faz isto a contragosto e que em função das alternativas de que dispõe escolhe o mal menor, o Presidente da República também está a dizer aos portugueses que, apesar de ser um mal menor, não deixa de ser um mal. Por isso, este Governo chega ao fim deste processo ainda mais desgastado», sustentou José Sócrates.

Segundo o ex-líder dos executivos entre 2005 e 2011, esta crise política «foi a história de um duplo falhanço», tendo falhado em primeiro lugar o Governo, «porque abriu a crise com a demissão do ministro das Finanças [Vítor Gaspar], reconhecendo o falhanço das suas políticas, que depois foi acentuada com a demissão do ministro Paulo Portas».

«Mas falhou também de certa forma a proposta [de diálogo] do Presidente da República, embora deixe alguma história para o futuro, que merece ser aproveitada.

Para José Sócrates, no processo para o chamado acordo de salvação nacional, o Presidente da República «avaliou mal» em termos de saber primeiro se havia condições de partida entre PSD, PS e CDS para se entenderem.

«Um acordo tinha que assentar na base de uma mudança política, porque não se podia pedir por um lado ao Governo que mudasse a sua política, pondo em causa os seus compromissos» com a troika (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia) e, por outro lado, não se podia pedir ao PS que «desistisse da sua oposição às políticas que nos conduziram à atual situação de recessão e, de um momento para o outro, passasse a concordar com aquilo que tinha rejeitado. Por isso, sempre me pareceu que esse acordo era impossível», justificou.

José Sócrates considerou mesmo um negócio «politiqueiro» a tática de fazer com que a oposição concordasse com as políticas já comprometidas com a troika «a troco de eleições antecipadas».

«Para a direita [PSD/CDS] não basta um Governo, uma maioria e um presidente. É também preciso uma oposição no bolso. Ora, acho que isso é pedir de mais, porque ao PS cabe-lhe representar aqueles que não concordam, que estão descontentes, tendo o dever de servir de alternativa», sustentou.