O Bloco de Esquerda (BE) considera que o Presidente da República revelou o que o Governo «tem andado a esconder», isto é, que depois do fim da troika virá «outra troika, desta vez com 20 anos de austeridade».

«Depois desta troika sair vem outra troika, desta vez com 20 anos de austeridade, novamente e sempre em nome da dívida e dos credores», considerou o coordenador do Bloco João Semedo em declarações à agência Lusa.

O bloquista reagia às palavras do chefe de Estado escritas no prefácio do "Roteiros VIII", onde Aníbal Cavaco Silva considera "uma ilusão" pensar que as exigências de rigor orçamental vão desaparecer após a conclusão do programa de ajustamento e avisa que pelo menos até 2035 Portugal continuará sujeito a supervisão.

João Semedo criticou também a «atitude equívoca» mas «habitual e trivial» de Cavaco Silva, que entra em «contradição» ao «reconhecer os falhanços da política da troika e da austeridade mas ao mesmo tempo insistir na sua continuação».

«É uma contradição antiga de Cavaco Silva. Não se pode alertar para a evolução negativa a que conduziram as políticas de austeridade e ao mesmo tempo insistir nessas políticas», declarou o coordenador e deputado do Bloco.

No texto, que tem como tema o pós-troika, o Presidente da República explica em detalhe as novas regras europeias de disciplina orçamental, «que irão condicionar de forma profunda a vida nacional nos próximos anos», focando em particular a «condicionalidade específica» a que estão sujeitos os países que recorreram a assistência financeira, como é o caso de Portugal, que obteve um empréstimo de 78 mil milhões de euros.

«Depois de concluir os respetivos programas de ajustamento, estes países continuarão sujeitos a uma supervisão pós-programa até terem reembolsado pelo menos 75% dos empréstimos que lhes foram concedidos pela União Europeia, período que pode ser prorrogado por decisão do Conselho, sob proposta da Comissão», refere Cavaco Silva, no segundo capítulo do prefácio, que é publicado na íntegra na edição de hoje do semanário Expresso, que divulga ainda o terceiro e quarto capítulos do texto inicial do «Roteiros VIII», que reúne as intervenções do Presidente da República ao longo do oitavo ano do seu mandato.

Cavaco Silva defende também no texto hoje revelado que a decisão sobre um eventual programa cautelar deve ser tomada «no momento adequado», «evitando alaridos precipitados», e tendo em conta a evolução dos mercados, da situação internacional e o sentimento dos parceiros europeus.