As eleições autárquicas são por natureza, aparentemente, menos significativas que legislativas ou presidenciais. Mas, por vezes, as autárquicas conseguem abanar fortemente o panorama político nacional. Os efeitos dos resultados das eleições deste domingo são ainda «frescos», mas as autárquicas de 2013 originaram surpresas, derrotas e vitórias históricas que podem ter aberto o caminho para uma mudança significativa na política de que tanto se diz mal.

A maior surpresa da noite eleitoral, pelo menos nas vitórias, foi o triunfo de Rui Moreira no Porto. O independente foi o que conseguiu o resultado mais significativo entre as candidaturas apartidárias, dando origem a uma derrota pesada para Luís Filipe Menezes. A vitória de Moreira, que segundo o próprio só no Porto seria possível, vem escancarar uma porta que há muito se tentava abrir: as candidaturas independentes «vieram para ficar» e abalar o chamado bloco central de poder.

Nas derrotas, a surpresa foi outra. Há muito esperada, várias vezes dada como certa, mas nunca concretizada, pelo menos até ontem. O PSD de Alberto João Jardim sofreu a primeira derrota eleitoral em 38 anos. O PSD perdeu sete das onze câmaras da região que governava com maioria desde 2001. Das 54 freguesias no arquipélago passou a ter 31. Aqui, é caso para dizer que a união faz a força. A perda histórica do bastião Funchal foi possível com a coligação «Mudança» liderada pelo professor Paulo Cafofo, apoiada pelo PS, BE, MPT, PTP, PAN e PND, a eleger cinco vereadores e a derrotar o PSD que detinha desde 1976 a maioria nesta câmara da Região.

Apesar de perdas significativas, como Braga, o PS pode também dizer que teve uma noite histórica. O PS conquistou nas autárquicas de domingo 138 municípios (ainda há 66 autarquias por apurar), «a maior vitória de sempre que um partido político alcançou em eleições autárquicas», segundo o próprio líder socialista. Desde o 25 de Abril que o PS não tinha um resultado nas eleições autárquicas tão elevado. Uma conquista de Seguro com cheirinho a António Costa.

O edil de Lisboa teve a noite que, provavelmente, sempre sonhou. Aplaudido por muitos, Costa sublinhou a vitória com maioria absoluta (50,91%)> e deixou um recado para o futuro. «O sentido do voto na cidade de Lisboa tem um significado muito claro: «O apoio a uma gestão que revelou ser possível, em Portugal, uma política alternativa àquela que tem vindo a ser seguida» pelo Governo. António Costa não foi claro sobre o seu futuro no PS, mas para bom entendedor, lá foi dizendo que, por agora, ainda é «prematuro» vê-lo «pelas costas».

Ainda de vitórias significativas é feita a noite deste domingo. Para muitos, a CDU foi a coligação partidária que verdadeiramente venceu a noite. Os comunistas e os Verdes recuperam algumas das câmaras perdidas, como Loures e conquistaram mais cinco autarquias que em 2009. Na leitura da noite, Jerónimo de Sousa sublinhou que Passos Coelho recuperou o seu lema «que se lixe as eleições», numa alusão ao facto do PM ter deixado entender que apesar dos resultados a política do Governo vai continuar.

Espaço ainda para salientar a frase da noite: o «penta» de Paulo Portas e a derrota dura à esquerda.

E por fim, porque os últimos, também podem vir de facto em último: a derrota histórica do PSD que nas palavras do próprio primeiro-ministro foi «um dos piores resultados» do PSD. O «preço», que os autarcas sociais-democratas pagaram «pela forma» como o Governo «está na política», do qual Passos Coelho irá certamente, um dia mais tarde, receber a factura.