Portugal está encalhado num tabuleiro de xadrez porque os movimentos portugueses de contestação contra a austeridade não souberam fazer chegar a mensagem aos cidadãos. A afirmação é de Juan Carlos Monedero, fundador do partido espanhol Podemos e autor do livro “Curso Urgente de Política para Gente Decente”, que acaba de ser lançado em Portugal.

“Portugal é um país encalhado num tabuleiro de uma aborrecida partida de xadrez onde os peões continuam a jogar porque não têm possibilidade de sair do jogo”, afirmou, em entrevista à Lusa, Juan Carlos Monedero, referindo-se aos partidos que têm governado o país.


O político espanhol frisa que cada Estado tem as suas peculiaridades e recorda que “a dada altura” o Bloco de Esquerda, em Portugal, cometeu erros ao não arriscar sendo que, sublinha, vive-se um momento em que as forças políticas que não arrisquem estão condenadas a serem devoradas pelo sistema ou a serem expulsas.

“É preciso avançar para a ‘guerra de movimentos e de posições’ que devem ter reflexos em mudanças na consciência política dos cidadãos ou então não serão duradouras e nem sequer se podem considerar transformações”, alerta o fundador do Podemos, o partido espanhol que nasceu do Movimento 15-M, e das manifestações de “indignados”.

“As mudanças que não operam no seio da sociedade civil não vão funcionar na sociedade política e, portanto, os movimentos, como em Portugal que foram contra a troika, deviam ter evitado demasiada confrontação e deviam ter procurado construir alternativas. Foi por isso que os movimentos de contestação não funcionaram em casos como Portugal”, explica.

Para Monedero, os principais partidos portugueses enganaram os seus eleitores, como em toda a Europa, onde socialistas e liberais ou democratas-cristãos foram os gestores de um sistema democrático que se esvaziou. Por outro lado, muitas das forças políticas que tinham de apresentar alternativas cometeram erros, e invalidaram as alternativas para construir uma maioria.

“A grande diferença de Espanha em relação aos países vizinhos foi o 15-M, um movimento de indignados, próprio de países católicos que não têm formas para canalizar os conflitos através das instituições”, recorda o político e académico espanhol.

Monedero acredita que o Podemos vai ser a segunda força política de Espanha capaz de romper com a “loucura” do nacionalismo catalão e com o “nacionalismo ‘espanholista’ católico e tradicional” do Partido Popular.


Gregos não são determinantes para Portugal e Espanha 


Juan Carlos Monedero disse ainda à Lusa que as eleições legislativas na Grécia já não são determinantes para os processos eleitorais em Espanha e Portugal.

“Fomos ingénuos ao vincular os destinos do Podemos aos destinos da Grécia, sobretudo porque a economia grega representa dois por cento do Produto Interno Bruto (PIB) da Europa e o PIB espanhol representa 12 por cento”, disse Monedero acrescentando que a realidade grega não se aplica a outras situações na Europa.

“As eleições na Grécia, no domingo, já não são determinantes para as eleições em Portugal e Espanha”, disse à Lusa referindo-se aos processos eleitorais de outubro e dezembro, respetivamente.


Para Monedero, o Syriza na Grécia, Jeremy Corbyn à frente dos Trabalhistas britânicos ou o Podemos em Espanha fazem da uma Europa um continente “muito mais decente” e com a possibilidade de criação de alternativas mas, sublinha, que não se podem vincular os destinos de países que são diferentes.

De acordo com o fundador do Podemos, “as possibilidades são diferentes e a impossibilidade” da Grécia não é a mesma daquela que se verifica em Espanha e, da mesma forma, não se pode exigir nem à Grécia ou a Portugal “que façam o que não podem fazer” porque são países mais pequenos.

“Os maiores não podem dizer ao irmão mais pequeno para irem lutar contra o inimigo. Façamos as nossas obrigações e ponhamos um pouco mais de ordem para depois ajudarmos os mais pequenos a encontrarem as suas próprias soluções”, disse defendendo o combate contra bipartidismo em países como Espanha, Portugal ou Grécia.

“Dá um bocado de vergonha, mas o grande erro de Tsipras foi convocar um referendo. Na Europa dos direitos humanos e da democracia envergonha-me ter de assumir que convocar um referendo pode transformar-se num erro, porque é demonstração de que a democracia na Europa não funciona”, afirma.

Para Juan Carlços Monedero, Tsipras, quando realizou o referendo em julho, procurou “caçar dragões com fisgas e redes de borboletas e na verdade estava a falar com mafiosos”, recordando que o ministro das Finanças alemão disse na altura que os processos eleitorais não mudariam nada.

“Esta é uma frase dos Sopranos e não de um líder de um país democrático”, acusa Monedero.


Para o político e pensador espanhol, o ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis estava certo porque pensava que a vitória no referendo significava seguir em frente mas o primeiro-ministro “travou tudo” provocando a desunião no seio do partido e deixando todo processo sob a bandeira da resignação.

“Não gostei e foi um erro político. Por isso, agora separo os destinos do Podemos dos destinos do Syriza. São países diferentes com capacidades diferentes”, considera.

Mesmo assim, refere que em países como Portugal e Espanha, o bipartidismo é uma perversão da democracia porque os partidos socialistas deixaram de ser social-democratas.

"As reformas neoliberais puseram em marcha partidos que se dizem socialistas e formam parte de um jogo que recorda um combate de boxe viciado, onde às vezes parece que dão golpes fortes, estão sempre a abraçar-se, magoam-se pouco e quando querem fazem pactos”, conclui.