A situação política em Espanha, com o rescaldo das eleições municipais e autonómicas, por um lado, e a situação na Grécia, com um impasse entre o Syriza e a Europa para ajuda financeira, por outro, motivaram esta terça-feira reações de políticos portugueses: o ministro da Economia, sobre o primeiro assunto, considerando que a previsibilidade política do Portugal "enfadonho" é boa para os investidores; e o porta-voz do PSD, sobre o segundo.

O ministro António Pires de Lima, atribuiu o "castigo" eleitoral aplicado ao partido da maioria em Espanha, o PP, aos casos de corrupção, desvalorizando que em Portugal a maioria PSD-CDS possa sofrer o mesmo nas legislativas.

"Acho que as circunstâncias são diferentes. Um dos temas que mais tem preocupado os espanhóis nos últimos anos é a falta de transparência - e até alguns casos de corrupção que foram conhecidos - o que contamina muito a confiança e dá espaço a discursos políticos se calhar um pouco populistas, demagógicos, mas alternativos"


Para o ministro da Economia, que é também um dos conselheiros nacionais do CDS-PP, e que está hoje de visita a Madrid, Portugal não tem tido nos últimos anos "uma densidade e intensidade de casos [de corrupção] como em Espanha". "Aqueles que existem são conhecidos, estão identificados e a justiça está a fazer o seu caminho", disse, sem especificar. Por isso, realçou, as circunstâncias são diferentes.

"Interpreto, em parte, os resultados das regionais aqui em Espanha mais como uma reserva ao comportamento em termos de seriedade e transparência de muitos políticos do que propriamente um castigo às políticas económicas que estão a ser seguidas e que, de facto, estão a trazer crescimento a Espanha, neste momento até superior ao que temos em Portugal", salientou.

Por outro lado, o Pires de Lima considerou que "em Portugal o resultado eleitoral será [sempre] mais previsível" do que em Espanha - porque não tem formações políticas radicais. "O espaço político dos candidatos a PM é mais um espaço de moderação do que de radicalismo, embora o ambiente de picardia política seja muito intenso neste período", considerou.

Por isso mesmo, afirmou que está confiante de que o fenómeno político em Espanha não vai influenciar os portugueses. 

"Acho que os portugueses pensam pela sua própria cabeça. São um povo moderado que demonstrou a sua enorme maturidade nestes últimos quatro anos. Percebem o que estará em causa em outubro e não prevejo nenhum crescimento de forças políticas que fragmentem de forma não desejável - impedindo até - a governação em Portugal depois de Outubro". "Portugal é um país politicamente previsível, até um bocadinho enfadonho do ponto de vista político", mas isso é uma boa notícia para os investidores.


Nas eleições municipais e autonómicas de domingo em Espanha, o PP foi o partido mais votado a nível nacional (ainda que perdendo 2,5 milhões de votos face a 2011), mas perdeu todas as maiorias absolutas de que dispunha nas comunidades e em várias cidades chave, incluindo Madrid. O partido de Mariano Rajoy ficou assim vulnerável a acordos entre os partidos de esquerda que afastem os "populares" do poder em várias regiões estratégicas.
 

PS e Syriza: o que têm em comum?


Já o porta-voz do PSD referiu-se também hoje à situação política de um país estrangeiro, mas neste caso, a Grécia, comparando o Syriza com o PS português. Marco António Costa defendeu, em Bruxelas, que “há um alinhamento" entre os dois partidos na ideia de que se deve combater a Europa.

Em declarações aos jornalistas após uma reunião com o comissário europeu Carlos Moedas, o vice-presidente e porta-voz dos sociais-democratas disse que o objetivo do encontro foi, cumprido um ano sobre as últimas eleições europeias, “falar sobre algumas matérias que para o PSD são essenciais, desde logo demarcar-se completamente da atitude que o PS tem tido em Portugal” relativamente à União Europeia.

Referindo-se a uma entrevista recentemente concedida pelo secretário-geral do PS, na qual António Costa afirmou que o partido grego de esquerda Syriza tem combatido a Europa de “uma forma tonta” desde que assumiu o poder, o porta-voz do PSD comentou que “o que está em causa” é que há um “alinhamento de uma ideia de combate à Europa” entre os socialistas portugueses e o Syriza, havendo apenas diferenças na forma como esse combate deve ser feito.

“Há um alinhamento entre o Syriza e o PS de que se deverá combater a Europa. Nós temos uma visão completamente contrária, temos uma visão de continuar a construir o projeto europeu, e o nosso compromisso é absoluto com o projeto europeu (…) Nós não queremos combater a Europa no PSD, nós, no PSD, queremos construir uma Europa mais coesa, mais solidária, e não uma Europa de combate de uns contra os outros, não é esse o projeto europeu”


Questionado sobre as longas negociações que ainda decorrem com vista a encontrar uma solução para a Grécia, Marco António Costa afirmou que, “desde a primeira hora, o PSD disse que era importante que o governo grego conseguisse encontrar um registo de confiança na relação que viesse a estabelecer com as autoridades europeias”, mas aquilo a que se assistiu foi uma atitude “irrealista” do governo formado pelo Syriza.

“Esta tal ideia de combate irrealista que o governo grego quis trazer para este debate no projeto europeu foi tempo perdido para a Europa e tempo perdido para os gregos”, comentou, acrescentando que é desejo de todos “que seja possível encontrar uma solução no curto prazo, e que neste caso tem que ser mesmo muito curto”, face à situação de quase-rutura dos cofres públicos da Grécia, que, no entanto, tem que dar garantias de reformas aos seus parceiros e credores.

Relativamente à reunião mantida com o comissário português que tem a seu cargo a pasta da Investigação, Ciência e Inovação, o dirigente do PSD referiu que discutiu com Carlos Moedas questões ligadas à investigação e o desafio que Portugal tem no sentido de “incentivar e motivar muitos dos agentes científicos portugueses e instituições a concorrerem ao programa Horizonte 2020 para obterem apoio, e também utilizar fundos estruturais, nomeadamente de apoio às Pequenas e Médias Empresas” (PME).

Segundo Marco António Costa é “fundamental uma ligação estratégica entre (os programas) Horizonte 2020 e Portugal 2020”, para tornar as PME portuguesas mais competitivas, e resolver simultaneamente, aquele que, indicou, será um “problema central” das preocupações do PSD “na próxima legislatura, que é objetivamente o emprego”.