O ex-procurador-geral da República Pinto Monteiro considerou esta segunda-feira, referindo-se à detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que está a ser feito um «aproveitamento político de um caso jurídico», que «prejudica o PS».

Em entrevista à RTP, Pinto Monteiro considerou que a justiça «pode correr esse risco, de ser politizada», mas distinguiu «a pressão da imprensa» do comportamento dos «bons magistrados» que conduzem o caso.

José Sócrates foi detido na sexta-feira à noite, no aeroporto de Lisboa, e começou a ser interrogado pelo juiz Carlos Alexandre, no Tribunal Central de Investigação Criminal, no domingo, aguardando-se para hoje a divulgação das medidas de coação a quem será sujeito.

Segundo a Procuradoria-Geral da República, o ex-primeiro-ministro está a ser investigado por suspeitas de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção.

Na entrevista de hoje à RTP, Pinto Monteiro não se furtou a fornecer detalhes sobre o almoço que teve com José Sócrates na passada terça-feira, três dias antes de o ex-primeiro-ministro socialista ser detido no aeroporto de Lisboa.

«Nunca tinha almoçado com ele a sós», disse Pinto Monteiro, adiantando que conversou com Sócrates sobre «livros» e sobre o ex-presidente brasileiro Lula da Silva e que o ex-governante não referiu a viagem que faria depois até Paris, capital francesa onde tinha residência há dois anos.

«Nunca me perguntou por nada de justiça», frisou, garantindo que ignorava «que havia um processo contra José Sócrates».

Durante o almoço num restaurante de Lisboa, que durou «uma hora e pouco», ambos mantiveram «uma conversa completamente inocente», resumiu Pinto Monteiro, dizendo ainda que não ficaram numa sala resguardada, como foi noticiado.

«Só o almoço é verdade, o resto é ficção», insistiu, acrescentando que não o surpreenderia se o seu telefone tivesse estado sob escuta.

«A quem está na justiça já nada surpreende», reconheceu. «Não tenho nada contra as escutas, desde que não sejam fornecidas a jornais», precisou.

O ex-procurador reconheceu que o almoço acabou por ser «uma coincidência complicada» e «desagradável», mas recordou que almoçou, no passado, «com vários políticos».

Assumindo «simpatia» por José Sócrates, Pinto Monteiro frisou: «Eu almoço, como cidadão livre que sou, com quem quero.»

Segundo contou, antes deste almoço, José Sócrates telefonou-lhe «uma vez, a desejar bom natal».

O ex-procurador falou ainda sobre os casos judiciais anteriores que envolveram o nome de José Sócrates, nomeadamente o caso Freeport, sublinhando, porém, que o processo em curso «é novo».

O Freeport «é uma fraude, é um processo inventado», avaliou Pinto Monteiro, recordando que «não foi encontrado nada».

Sobre o caso Face Oculta, Pinto Monteiro lembrou que as escutas feitas às conversas entre José Sócrates e Armando Vara foram destruídas porque «não havia crime nenhum».

O ex-procurador afastou, por isso, qualquer pressão. «Nunca me senti pressionado, até porque tenho mau feitio para pressões», afirmou.

Juntamente com José Sócrates, foram interrogados Carlos Santos Silva, amigo do ex-primeiro-ministro e antigo administrador do grupo de construção Lena, João Perna, motorista do ex-governante e o advogado Gonçalo Trindade Ferreira, todos detidos no âmbito de uma investigação por crimes económicos.

Os outros três arguidos no processo foram detidos na quinta-feira e aguardam também as respetivas medidas de coação.