O primeiro-ministro, António Costa, afirmou este sábado em Coimbra que acredita que "já está tudo esclarecido" relativamente à contabilização das vítimas mortais do incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande, Leiria, em junho passado.

"Creio que isso já está tudo esclarecido pela Autoridade Nacional de Proteção Civil e pelo Ministério da Justiça", disse o primeiro-ministro, questionado pelos jornalistas sobre uma notícia do Expresso que refere que a lista de 64 mortos do incêndio de Pedrógão Grande exclui vítimas indiretas e que houve pelo menos 65 mortos.

O líder do Executivo escusou-se a prestar mais declarações aos jornalistas, que confrontaram António Costa com a notícia do semanário, quando o primeiro-ministro chegava a um evento organizado pela Federação de Coimbra do PS.

De acordo com o jornal, a lista de 64 mortos do incêndio de Pedrógão Grande exclui vítimas indiretas. De acordo com o semanário, os critérios para elaborar a lista oficial das vítimas mortais do incêndio "excluem mortes indiretas", designadamente a de uma mulher que foi atropelada quando fugiu das chamas.

O semanário refere que pediu a lista oficial de mortos ao Ministério da Justiça, tendo recebido a indicação de que a identificação das vítimas mortais era "informação emergente da atividade do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses e da Polícia Judiciária, integrada no inquérito-crime do Departamento de Investigação e Ação Penal da Comarca de Leiria, que se encontra em segredo de justiça".

Em reação à notícia, a Autoridade Nacional de Proteção Civil reiterou este sábado que o incêndio do mês passado em Pedrógão Grande fez 64 vítimas mortais, em "consequência direta" do fogo, e que outros eventuais casos não se integram nos critérios "definidos".

Os critérios que foram identificados para apurar as vítimas do incêndio são "mortes por inalação e queimaduras", resultantes do fogo, adiantou à agência Lusa a adjunta nacional de operações Patrícia Gaspar.

Líder do CDS considera “haver muito por esclarecer”

A presidente do CDS, Assunção Cristas, considerou que "há muito por esclarecer no que diz respeito ao incêndio de Pedrógão", na sequência da divulgação hoje de um eventual 65.º morto da tragédia ocorrida em junho.

Assunção Cristas falava à margem da apresentação do mandatário e candidato à Assembleia Municipal da lista de Cancela Moura, apoiado pela coligação PSD/CDS à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, o eurodeputado social-democrata Paulo Rangel e a deputada centrista Cecília Meireles, respetivamente.

Há hoje uma notícia muito preocupante, a de que afinal há mais uma vítima mortal associada aos incêndios em Pedrógão e que nos levanta a dúvida se, de facto, o Governo está a dar todas a informação", questionou a líder do CDS.

E continuou: "creio que isso é exigível, a bem da transparência e do restabelecimento da confiança que os portugueses precisam de restabelecer nas instituições do Estado, nas instituições que servem em primeiro lugar para os proteger e para lhes dar garantias de segurança".

Vejo com preocupação que agora haja este dado adicional, o que quer dizer que há muito por esclarecer no que diz respeito ao incêndio de Pedrógão", considerou Assunção Cristas, lembrando que passado um mês do incêndio continuam-se "a descobrir dados novos".

Reafirmando o empenho do CDS "em garantir que tudo o que há para saber venha a ser sabido", lembrou a constituição de uma comissão independente que está a iniciar os seus trabalhos" e que "certamente que o Governo também está a fazer as suas inquirições".

"O CDS também já teve respostas, mas respostas ainda preliminares de um conjunto muito relevante de questões e continuaremos a insistir nesta tecla, porque tem a ver com o de mais importante e relevante há na existência de um Estado", argumentou.

Considerando que para haver "tranquilidade e confiança nas instituições do Estado" terão que haver "informação e transparência", sustentou que "custa muito ver que por um critério que não se sabe muito bem qual é, aparentemente há uma vítima que não ficou associada a este incêndio, apesar de aparentemente ter também perecido na sequência do pânico num episódio de fuga".

Perante isso deixou a pergunta: "Já sabemos tudo ou ainda há mais por descobrir?".

A líder interpreta-o como a evidência de que o "Governo não está a líder bem com esta situação" e que, por isso mesmo, o CDS reclamou e continua a insistir numa "remodelação profunda no Governo" por ausência de "confiança, condições políticas de autoridade e de força suficientes na ministra da Administração Interna que está muito fragilizada".

"Informações como estas não nos ajudam a restabelecer a confiança no Governo e levam-nos a perguntar, com isto e com a lei da rolha para a Proteção Civil, se não temos um Governo que, de facto, não é capaz de atuar com frontalidade e transparência e numa situação difícil e de crise reagir à altura que lhe é exigível", disse.

Escusando-se a comentar a entrevista do antigo presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado, Assunção Cristas repetiu críticas ao Governo na polémica da compra da TVI pela Altice.

E afirmou: "no passado, quando os Governos, nomeadamente do Partido Socialista, quiseram interferir nas empresas privadas, o resultado foi muito negativo", disse, lembrando as recentes declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, quando admitiu que "talvez fizesse greve" se fosse funcionário da PT.

"Este Governo parece que está a seguir exatamente essa linha socrática e, portanto, lamento que esse tipo de comentário seja feito com ligeireza e irresponsabilidade, quer por parte do primeiro-ministro, quer pelo ministro dos Negócios Estrangeiros", concluiu.