O eurodeputado socialista Pedro Silva Pereira defendeu, esta sexta-feira, que há muita gente na direita a agir "na sombra contra os interesses de Portugal", não se batendo por eles ou empurrando para "um conflito aberto" com a Comissão Europeia.

"Hoje, infelizmente temos de reconhecer que há muita gente na direita portuguesa a agir na sombra contra os interesses de Portugal, dos portugueses e da economia nacional", acusou Pedro Silva Pereira, durante uma intervenção nas jornadas parlamentares do PS, em Vila Real.

De acordo com a Lusa, o eurodeputado e ex-ministro deu dois exemplos, num dos quais nomeou concretamente o eurodeputado do PSD José Manuel Fernandes, a quem acusou de se ter oposto à consagração do princípio do benefício das economias mais afetadas pela crise no plano dos investimentos Juncker. O segundo exemplo foi uma acusação mais lata acerca da notação da dívida portuguesa pela agência DBRS.

Neste último caso, Silva Pereira afirmou que a agência canadiana disse que o "rating" da dívida nacional "é muito estável, a menos que se abra um conflito aberto com a Comissão Europeia".

"Há muita gente na sombra a trabalhar, disposta a empurrar a Comissão Europeia para um confronto aberto com Portugal, contra os interesses de Portugal, dos portugueses, da economia nacional e do projeto europeu na pior das alturas", defendeu.

"Este comportamento, em bom rigor, não é novo, nós já o vimos há uns anos atrás. Esse é o combate, o bom combate, que precisamos de travar, ao serviço dos portugueses, ao serviço da coesão territorial, da convergência, sem o qual não há futuro para o projeto europeu", acrescentou.

O primeiro exemplo da alegada ação da direita portuguesa contra os interesses de Portugal envolveu uma acusação direta ao eurodeputado do PSD José Manuel Fernandes, durante a discussão do plano Juncker, em que os socialistas "bateram-se muito para que o plano tivesse preocupação com as economias mais atingidas pela crise".

De acordo com Silva Pereira, a proposta foi apresentada primeiro nas comissões e o PS "empenhou-se em que essa preocupação viesse mesmo a ser consagrada, e o representante socialista era um social-democrata alemão, aliás, o líder da representação do SPD alemão no Parlamento Europeu".

"Insistimos com ele, queríamos garantir que ele estava a ser fiel à orientação e se estava a bater para uma orientação deste fundo Juncker para as economias mais afetadas pela crise. A resposta que ele deu foi extraordinária", começou por contar.

"Disse ele: ‘eu bem estou a tentar, estive horas a negociar com o representante do PPE a inclusão desse princípio, de que o fundo de investimento Juncker deve apoiar mais as economias mais atingidas pela crise, mas nem queira saber, há lá um deputado português do PSD, que parece que dá pelo nome de José Manuel Fernandes, que é contra e foi contra até ao fim'", concluiu.

De acordo com o eurodeputado socialista, o social-democrata justificou que já existiam os fundos de coesão para apoiar as economias mais fustigadas pela crise e que estes fundos do plano Juncker se destinavam aos "melhores projetos, os que são mais atrativos para o investimento privado".

"Resultado: hoje estes fundos estão a ser usados em projetos nas economias mais desenvolvidas da Europa, em Itália, no Reino Unido, alguns em Espanha", concluiu Pedro Silva Pereira.

O eurodeputado intervinha num painel de discussão em que também falaram os ministros Pedro Marques e Eduardo Cabrita, no primeiro dia das jornadas parlamentares do PS, que terminam no sábado, em Vila Real.

 

José Manuel Fernandes acusa Pedro Silva Pereira de mentir

O eurodeputado social-democrata José Manuel Fernandes respondeu às acusações de Pedro Silva Pereira, considerando que o colega eurodeputado teve “afirmações inacreditáveis” e “mentiu descaradamente”.

“Pedro Silva Pereira teve afirmações inacreditáveis, mentiu descaradamente”, disse, em declarações à Lusa.

“Eu fui o relator do Plano Junker, do Fundo Europeu para os Planos Estratégicos, fui eu que o propus e foi aprovado, que na seleção dos projetos a coesão territorial e a criação de emprego devem ser elementos para essa seleção, o que é importante para Portugal”, salientou o eurodeputado José Manuel Fernandes.

Segundo José Manuel Fernandes, também foi por sua proposta que o “mau rating de um Estado-membro não pudesse ser um fator depreciativo dos projetos”.

“Está aprovado também que o fundo não pode ter uma concentração geográfica ou temática, que deve colmatar as falhas de mercado”, disse.

Para José Manuel Fernandes, a afirmação de Pedro Silva Pereira é “inimaginável” e “inaceitável” até porque votou a favor do documento.

“Depois há aqui uma coisa que é absurda, é que o Plano Junker foi aprovado em 24 de junho de 2015, e, nessa altura, era Pedro Passos Coelho o primeiro-ministro e não se pode omitir esse facto. Se a narrativa de Pedro Silva Pereira fosse verdadeira eu estaria a prejudicar o primeiro-ministro que apoiei, ou seja, Pedro Passos Coelho”, sublinhou.

José Manuel Fernandes concluiu, sublinhando que a atitude do seu colega “revela má-fé”