O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, acusou o Governo de ter "as prioridades mal definidas" e classificou como "secundário" um eventual consenso entre PSD e PS sobre as grandes obras públicas.

Na intervenção de encerramento da Universidade de Verão, que decorre em Castelo de Vide (Portalegre), Passos Coelho referiu-se à entrevista recente do primeiro-ministro, António Costa, ao Expresso, em que este defendia um consenso de dois terços (logo, com o maior partido da oposição) a propósito das obras públicas para o pós-2020.

Dizer que depende do principal partido da oposição para aquilo que é secundário e em tudo o que é relevante - reforma do Estado, da Segurança Social, educação, saúde, justiça -, tudo isto que é indispensável para termos um país com menos desigualdades, maior justiça social, isso não é relevante", lamentou.

Para Passos Coelho, não serão as grande sobras públicas que farão o país crescer mais, nem aumentar as suas exportações ou evoluir na área da educação ou investigação.

Um consenso sobre as obras públicas para o futuro? Então o Governo adiou o consenso que existia sobre todas as obras públicas relevantes que podiam e deviam ter sido financiadas no quadro do Portugal 2020", criticou ainda, acusando o executivo PS de ter congelado o investimento previsto nesta área nos últimos dois anos.

Na sua intervenção, Passos aludiu também à anunciada intenção do Governo de aumentar os atuais cinco escalões do Imposto sobre o Rendimento Singular (IRS), questionando que tal seja desejável em Portugal.

Segundo o líder do PSD, em Portugal quase metade dos portugueses não paga IRS porque não tem rendimentos para tal e 1,1% dos agregados familiares fiscais gera cerca de 30% da receita do IRS.

E ainda dizem que é preciso aumentar a progressividade fiscal? Estão a falar a sério? […] Eu acho que estamos na fronteira do que a progressividade pode trazer de benéfico, se formos além disto as pessoas que podem pagar vão para outros destinos fiscais", alertou.

Passos Coelho voltou a salientar "o mérito do Governo" no cumprimento do défice, mas lamentou que nunca tivesse assumido a escolha que fez de dar "prioridade à recuperação salarial em detrimento da necessidade de manter o mínimo de qualidade dos serviços públicos".

Sobre a opção do executivo pelo aumento dos impostos indiretos, Passos Coelho até admitiu que pode ser "habilidoso", por ser menos sentido pelos contribuintes, mas rejeitou que seja justo.

O líder do PSD desafiou ainda o Governo, que tem tido reuniões com PCP e BE sobre "o leilão orçamental", a dizer se já tem apoio dos partidos da ‘geringonça' para aderir ao mecanismo europeu de cooperação reforçada em matéria de defesa, uma decisão que terá de ser tomada até setembro/outubro.

"Vão gastar mais em defesa? Vão fazer algum investimento com apoio do PCP e do BE para trabalhar num Portugal que possa defender-se melhor. Isto não se discute", disse, lamentando que não se discutam outras matérias como a reforma do Estado ou da Segurança Social.

 

Passos Coelho defende Cavaco Silva

Pedro Passos Coelho acusou, também, o Governo e a atual maioria de dissimulação e intolerância para quem pensa de forma diferente, questionando se os sociais-democratas não têm direito a expressar a sua opinião.

Não respeitamos a dissimulação em política e por isso denunciamos […], não aceitaremos um ambiente de intolerância em que só se discute o futuro segundo a perspetiva do pensamento dominante e em que quem não pensa como quem está no Governo não é bom português, é racista, é xenófobo ou é outra coisa qualquer", criticou.

Nos últimos tempos, quer a propósito de declarações polémicas do candidato do PSD à Câmara de Loures, André Ventura, quer quanto à intervenção do líder do PSD no Pontal - que criticou alterações à lei da imigração -, o PS e o BE já fizeram acusações de racismo e xenofobia ao discurso de Passos Coelho.

Numa intervenção de 50 minutos, Passos Coelho nunca se referiu às eleições autárquicas, que se disputam a 01 de outubro, e voltou a defender as intervenções do ex-Presidente da República Cavaco Silva e do eurodeputado do PSD Paulo Rangel na Universidade de Verão, que mereceram reações críticas da esquerda.

O dr. Cavaco Silva não tem direito a exprimir a sua opinião? Se o fizer tem logo de ser o ressabiado, o que precisa de palco?", criticou, depois de o primeiro-ministro, António Costa, ter dito que o antigo chefe de Estado "tinha saudades de palco".

Passos Coelho lamentou que as críticas, quer a Cavaco quer a Rangel tenham procurado "desqualificar a pessoa, como se não tivesse direito à opinião, ainda por cima fundamentada".

"Não temos direito a ter a nossa opinião?", questionou.

Para Passos Coelho, o atual Governo "só tem uma preocupação": "Poder apresentar as suas escolhas de forma tão dissimulada que quando tiverem de ser confrontados em eleições se possa diabolizar a oposição e se possa vender um benefício muito relativo do exercício do poder".

"Nós, no Governo ou na oposição, mantemos o nosso foco na esfera de médio ou longo prazo […]. Deixamos essa espuma dos dias para a geringonça", afirmou.

Passos Coelho apontou o caso da fábrica de automóveis Autoeuropa como um exemplo dessa "espuma dos dias", referindo-se a declarações de sábado da secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, e do líder comunista Jerónimo de Sousa.

"O que se observa na Autoeuropa hoje, e cito, é uma partidarização do conflito laboral, coisa que outra personalidade da ‘geringonça' considera ser uma crítica estúpida. Um diz que há e outro diz que não há", apontou, vaticinando que este tipo de contradições se "tornarão mais evidentes" nos dois anos que faltam para terminar a legislatura.

No entanto, Passos considerou que o atual Governo tinha "condições muito particulares" para levar a cabo "uma ação reformista a pensar no futuro".

"O Governo não se pode queixar de falta de estabilidade política […], não se pode queixar da falta de cooperação do Presidente da República - tem sido permanente e efetiva -, não se pode queixar de intolerância de Bruxelas e conta também com uma enorme tolerância de vários parceiros na sociedade civil, uns porque têm medo de se opor e outros porque acreditam no que o Governo está a fazer", disse.

"São tantas as condições boas para que o Governo possa preparar alguma coisa com sentido de Estado e de futuro que é legítima a pergunta: porque não o faz?", questionou.