O líder do PCP diz que os portugueses não estão descontentes com a democracia, mas com quem lhes inferniza a vida, criticando que o seu «drama» não tenha sido abordado pelo Presidente da República no discurso do 05 de Outubro.

«Não, senhor Presidente da República, os portugueses não estão descontentes com a democracia que a Constituição da República consagra, estão é descontentes com aqueles que no Governo, juntos ou à vez, lhe têm infernizado a vida, descontentes por verem um Presidente da República a ser um ajudante desse Governo e da sua política e não assumir o juramento que fez de cumprir e fazer cumprir a Constituição da República e o projeto de democracia que ela mesmo consagra», afirmou Jerónimo de Sousa.

Na Marinha Grande, num almoço com cerca de 600 pessoas, considerou ainda ser «espantoso» que hoje, «dia de feriado roubado pelo Governo com a anuência do Presidente da República», Cavaco Silva «venha falar sem dizer uma palavra sobre os dramas dos portugueses», como o desemprego ou o empobrecimento.

«E venha, tão-só, dar uma mãozinha para tentar salvar a política de direita, apelar a que PS, PSD e CDS se juntem e se comprometam ainda mais para levar por diante esta política falhada e desgraçada, colocando o problema do sistema político e partidário, não na responsabilidade que ele Presidente da República também tem - e muita - numa política que nos está a conduzir para o desastre», declarou o secretário-geral do PCP.

Para Jerónimo de Sousa, é necessária uma «verdadeira mudança política» que «não seja a mera mudança de caras e de estilos, como mostrou o debate e o desfecho da disputa interna pela liderança do PS, onde, em substância, nada trouxe de novo em matéria de política alternativa».

Segundo o líder do PCP, «tem razão o senhor Assis [eurodeputado socialista], ainda ontem [sábado], na linha aliás de Cavaco Silva, dizia é preciso um governo do Bloco Central».

«Eu acho que Costa [candidato do PS a primeiro-ministro] nunca dirá isto assim, mas a verdade é que o pensa, porque se eles puderem vão, outra vez, entender-se com o PSD ou com o CDS ou sem o CDS para prosseguir a mesma política de direita», acrescentou.

O Presidente da República apelou hoje a uma cultura de compromisso político por parte das forças políticas considerando que, caso contrário, haverá um risco de implosão do atual sistema partidário português.

Na cerimónia comemorativa do 5 de Outubro, realizada no salão nobre da Câmara Municipal de Lisboa, Cavaco Silva propôs igualmente uma reflexão sobre o regime político português, destinada a encontrar soluções para os problemas de governabilidade, que considerou ser urgente.

Ressalvando que, no seu entender, «os portugueses não estão insatisfeitos com a democracia ou com a República», Cavaco Silva assinalou os estudos que evidenciam «a insatisfação dos cidadãos e a sua falta de confiança nas instituições - sobretudo nos partidos».