O eurodeputado do PSD Paulo Rangel elogiou este sábado o "ataque sério e consistente" feito nos últimos tempos à corrupção e "promiscuidade", criticando a forma como o líder socialista "faz graçolas" com "coisas demasiado sérias", como o caso BES.

Estas declarações tiveram uma reação imediata do PS, que exige saber se Passos Coelho concorda com elas. O primeiro-ministro não se comprometeu, mas elogiou o funcionamento do sistema judicial.
 

"Foi durante este Governo, não é obra deste Governo, não é mérito deste Governo, mas foi durante este Governo que pela primeira vez em Portugal houve um ataque sério, profundo e consistente, à corrupção e à promiscuidade", afirmou Paulo Rangel, na última ‘aula' da Universidade de Verão do PSD, que termina domingo em Castelo de Vide.


Questionando se "alguém acredita que se os socialistas estivessem no poder haveria um primeiro-ministro sob investigação" ou "o maior banqueiro estaria sob investigação", o eurodeputado ressalvou, contudo, que se tratou de "obra do poder judicial".

Mas, acrescentou que "uma coisa é certa": "o ar democrático em Portugal hoje é mais respirável e nós somos um país mais decente".

Ainda a propósito do caso Espírito Santo, Paulo Rangel recuperou uma afirmação do secretário-geral socialista, criticando o seu hábito "nefasto" de estar sempre a "ironizar e a ridicularizar os outros".

"Sobre o Banco do Fomento teve a seguinte tirada: falam-nos do banco bom, falam-nos do banco mau, mas não falam do Banco do Fomento", lembrou, questionando como é que "uma pessoa que quer ser primeiro-ministro pode brincar de uma forma destas" e pediu "encarecidamente" ao secretário-geral do PS para não fazer "graças, nem graçolas" sobre "coisas demasiado sérias".


Paulo Rangel apontou ainda outra razão para a sua "inquietação", falando da falta de rumo e de ideias de António Costa.

"Tenho olhado para o discurso do PS, tenho olhado para discurso de António Costa e pergunto-me todos os dias, todos os dias ao levantar-me: Que quer António Costa para Portugal? Que ideia é que António Costa tem? Que rumo é que António Costa quer para Portugal? António Costa não dá uma ideia do Portugal que quer. Ele quer que Portugal seja a Grécia? Quer que Portugal seja Escócia ou quer Portugal seja Brasil ou Índia?", perguntou.


Pelo contrário, contrapôs, a coligação PSD/CDS-PP já disse muito claramente o que quer: continuar no mesmo caminho, do crescimento gradual, credibilidade do país e do saneamento das contas públicas.

"Era muito fácil fazer flores e foguetes para aumentar as percentagens nas sondagens nestes últimos quatro anos, mas não é isso que nós queremos. Queremos um crescimento sustentável, queremos criação de criação emprego sustentada, mas nós não queremos voltar atrás", insistiu.


De António Costa, referiu, só se ouve falar de "casos", como do metro do Porto, do Banco do Fomento ou dos fundos europeus.

"Que modelo quer António Costa? Sabem a impressão que eu tenho é que António Costa, que era o presidente das taxas e taxinhas, quer ser o primeiro-ministro dos casos e casinhos", disse.


Paulo Rangel defende Presidente com perfil mais interventivo 


O eurodeputado do PSD defendeu um candidato presidencial com um perfil mais interventivo do que Jorge Sampaio e Cavaco Silva, confessando que pensa que Mário Soares funcionou bem como chefe de Estado.

"Um candidato com um perfil mais interventivo para mim seria uma coisa que eu veria com interesse", afirmou Paulo Rangel.


A propósito de uma pergunta dos alunos, o eurodeputado fez uma avaliação dos mandatos presidenciais dos últimos 30 anos, concluindo "que funcionou sempre bem o Presidente Mário Soares como Presidente".

"Vou escandalizar toda a gente, mas eu acho que funcionou sempre bem o Presidente Mário Soares como Presidente", disse, analisando que o antigo líder socialista governou sempre à direita do PS e "meteu o socialismo na gaveta", apesar de querer ficar para a história como um homem de esquerda.


Admitindo que é defensor de um maior protagonismo do Presidente no sistema português e que mesmo com a atual Constituição o chefe de Estado poderia ter muito mais intervenção, o eurodeputado do PSD considerou que, "na dose certa", uma certa "competição" entre Governo e Presidente é positiva.

Ao contrário de Mário Soares, continuou Paulo Rangel, Jorge Sampaio "não quis intervir", preferiu assumir ao longo de quase todo os seus mandatos um papel "mais neutral" e, mesmo vendo que António Guterres estava a levar o país para o "descalabro orçamental", apoiou sempre o seu Governo, para no final acabar por ser o único chefe de Estado que usou o poder de dissolução contra uma maioria absoluta.

"É como aqueles pais que deixam sempre os filhos fazer tudo, até que chega uma altura em que já não há correção possível e ou lhes dá uma coça de cinto e expulsa de casa ou então já não conseguem dominar a situação", ironizou.


Paulo Rangel fez uma análise semelhante aos mandatos de Cavaco Silva, lembrando que no início do Governo Sócrates também achou que se estava a fazer um bom trabalho e, mais tarde, quando chegou ao discurso de tomada de posse do segundo executivo, "desfez o Governo em plena Assembleia da República".

"Prefiro um Presidente que ponha espinhos no caminho quando tem de por e depois não tenha de usar as armas brutais quando o mal já está feito", disse, insistindo que prefere um chefe de Estado interventivo, que alerta, critica e está presente, porque "um Presidente complacente é um mau Presidente".

"Embora muitas vezes o doutor Mário Soares tenha sido irritante para o nosso Governo de maioria absoluta, a verdade é que isso puxava que fôssemos melhores", sublinhou.


Pelo contrário, Jorge Sampaio e Cavaco Silva quiseram-se proteger muito no início e acabaram por se desproteger muito no final.

"O Governo precisa de um certo tratamento: de vez em quando é preciso por um pouco os pontos nos ‘i's', isso faz-se em privado, mas às vezes também é preciso dar sinais públicos", acrescentou.


Na sua intervenção, Paulo Rangel antecipou ainda que nas eleições legislativas e "havendo resultados eleitorais pouco claros", terão que existir "negociações de bastidores", considerando que nesse cenário o Presidente da República poderá ter um papel a desempenhar.

No final, disse, não é de excluir que se chegue a soluções já ensaiadas noutros países apesar de não ser essa a tradição portuguesa. Por exemplo, "encontrar uma terceira personalidade que possa fazer o pleno entre dois partidos que se queiram coligar".