Um dia após encerrado o debate de dois dias na Assembleia da República sobre o Programa do Governo, que culminou com a sua rejeição e consequente queda do executivo PSD/CDS-PP, eurodeputados portugueses mantiveram, esta quarta-feira, uma discussão acesa no Parlamento Europeu.

Num debate no hemiciclo de Bruxelas sobre governação económica, com a presença do comissário europeu com a pasta do Euro, Valdis Dombrovskis, a situação política portuguesa entrou no debate na sequência de uma intervenção do líder da delegação do PSD ao Parlamento Europeu, Paulo Rangel, que suscitou vivas reações de Elisa Ferreira (PS) e Marisa Matias (Bloco de Esquerda), tendo a dado momento o vice-presidente da assembleia que presidia aos trabalhos recordado que o debate não era sobre Portugal, mas de âmbito europeu.

Na sua intervenção, Rangel fez questão de “chamar a atenção” da Comissão Europeia para o facto de “todo o esforço que a população portuguesa fez nos últimos quatro anos, com resultados tão prometedores e tão inspiradores”, estar agora “comprometido” devido ao “acordo de forças da extrema-esquerda com o PS, que põe em causa o equilíbrio que até agora tem sido seguido em Portugal”.

Imediatamente, Marisa Matias pediu a palavra para “perguntar ao colega Paulo Rangel se não sabe que o problema de Portugal é mesmo o desemprego, a falta de procura, a pobreza e a situação miserável a que o Governo nos trouxe com a ajuda das reformas estruturais” e explicasse então “qual a contradição entre melhorar os salários, o mercado de trabalho, a procura e o crescimento económico e desenvolvimento”, as prioridades do semestre europeu.

Rangel retorquiu que “é normal que para o BE, um partido de extrema-esquerda radical, contra a UE e contra o Euro, e que não está preocupado com o défice, nada disto (governação económica) faça sentido”, sendo todavia motivo de preocupação para quem está comprometido “com os objetivos europeus e com os objetivos estratégicos da UE” e que receia “um desastre”.

“Não queremos que Portugal caminhe para o desastre e que volte à bancarrota em que esteve em 2011, que os socialistas já nos puseram lá e agora nos estão a prometer outra vez que vai acontecer”, concluiu.


Quando teve a palavra – numa altura em que Paulo Rangel já abandonara o hemiciclo -, Elisa Ferreira, expressando-se em inglês para melhor passar a mensagem ao vice-presidente da Comissão Europeia, fez questão de assegurar a Dombrovskis que “o PS sempre foi o partido mais pró-europeu e o programa de Governo que foi preparado como alternativo àquele que acabou de ser chumbado cumpre inteiramente os compromissos de Portugal relativamente à UE, e em particular no quadro da governação” económica.

Lamentando que Paulo Rangel tenha saído do debate “depois de um ataque tão negativo e dramático à democracia no seu próprio país“, Elisa Ferreira, dirigindo-se a Dombrovskis (comissário que pertence à família política do Partido Popular Europeu), disse esperar que Bruxelas encare a provável tomada de posse de um Governo PS com o apoio dos partidos de esquerda como “um procedimento democrático nacional” e “que pense e atue independentemente das políticas partidárias".

Também Marisa Matias disse querer “acalmar um pouco” a assembleia: “não é preciso estarem preocupados com o que se passa em Portugal, porque o que se passa é democracia e não deve causar estranheza na casa da democracia”, declarou.