Paulo Portas afirmou esta terça-feira, em entrevista à SIC, que paga "um preço" de compreensão por ter revogado a decisão irrevogável da demissão de 2013, considerando que o Governo investiu mais no pilar económico depois dessa crise governamental.

Questionado sobre um eventual apoio a um Governo que não seja do PSD, Paulo Portas falou dos seus "receios em relação ao PS", apontando a falta de "revisão crítica" dos socialistas relativamente à situação que levou à ajuda externa em 2011, a posição de António Costa sobre a Grécia, e as propostas económico-financeiras socialistas.

"O PS põe a dívida 10 pontos acima do que o Governo entregou em Bruxelas", disse.


O vice-primeiro-ministro disse que chega "ao fim destes quatro anos com sentido de missão cumprida" e afirmou que "o Governo deve, em geral, um enorme obrigado e reconhecimento" aos portugueses.



A demissão de Portas do Governo, em 2013, foi introduzida com uma questão sobre a capacidade política da ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, tendo a crise no Governo sido aberta na sequência da saída de Vítor Gaspar e nomeação da atual ministra para a pasta.

"Tenho uma relação com ela que é diária, é muito boa e até bem-disposta, devo dizer", respondeu, quando foi interrogado sobre se foi surpreendido pela capacidade política da ministra das Finanças.


"Eu, em determinado momento, vi-me forçado a tomar uma atitude que foi um pedido de demissão, qualifiquei-o como irrevogável, revoguei essa decisão, pago o preço em termos de compreensão por ter feito essa revogação", afirmou.

Paulo Portas disse que "a cooperação no Governo é boa, é interpartidária", sublinhando que é o primeiro executivo de coligação a terminar o mandato e a concorrer junto as eleições.

"Tenho confiança em Pedro Passos Coelho e tenho confiança que a política que nós desenvolvemos permitiu a Portugal escolher mais quatro anos com mais confiança e mais esperança. Acho que há um risco de voltar atrás", afirmou, referindo-se na última consideração ao PS.


Sobre os "receios em relação ao PS", afirmou que aquele partido "não fez até hoje nenhuma revisão crítica sobre o que aconteceu em 2011" e que António Costa não se dirigiu após as eleições primárias à classe média para dizer "com toda a franqueza, com toda a humildade" que os socialistas cometeram erros e aprenderam com eles e não os repetirão "em matéria de défice e de dívida".

"Como não o fez, de cada vez que o PS dispara a despesa ou diminui a receita, as pessoas no seu consciente ou no seu inconsciente veem o PS de 2011", argumentou, dizendo que vê "o PS a disparar outra vez o défice e a dívida".


De acordo com Portas, esta posição dos socialistas corre "o risco de esbarrar com as regras europeias, um risco perda de confiança e de competitividade da economia e, portanto, de perda de investimento".

Paulo Portas aponta a posição do secretário-geral do PS sobre a Grécia, criticando António Costa por não fazer a "fronteira entre socialismo democrático e extrema-esquerda radical e extremista", tendo reclamado a vitória do Syriza como "um impulso".

"Portugal não tem nenhum interesse em estar a associar a sua situação à da Grécia, porque é completamente diferente", disse.


O vice-primeiro-ministro acusa ainda António Costa de quer "devolver tudo praticamente num abrir e fechar de olhos", seja a sobretaxa de IRS ou os salários da Função Pública, o que cria problemas a Portugal pelo facto de estar no euro.

"Se défice vai outra vez para cima de 3% como PS propõe fazer, isso significa que em Bruxelas lhe dirão que terá de cortar a despesa porque não pode fazer medidas de reposição ou recuperação se descontrolar o défice", argumentou.

Portas disse chegar ao final da legislatura "com sentido de missão cumprida" porque olhou para uma "circunstância de emergência nacional" de um país que "caiu em bancarrota em 2011".

"A minha primeira missão era acabar com o protetorado", declarou.


“Os desempregados não são números, são pessoas”


Paulo Portas afirmou que responsabiliza “quem trouxe o resgate a Portugal pelo que aconteceu ao emprego” e lembrou que os “desempregados não são números, são pessoas”. 

“Pessoas em volta das quais existe família. (…) As pessoas devem ser o centro das nossas preocupações”, afirmou.


Responsabilizando o PS pelo desemprego, o vice-primeiro-ministro argumentou que foi o partido que "trouxe o resgate, o memorando e a recessão a Portugal", e considerou que a criação de postos de trabalho está numa tendência "mais positiva". 



Portas afirmou ainda que "a tendência é mais positiva do que negativa" no desemprego, em Portugal, e que, "nos últimos dois anos, de facto, criaram-se 175 mil novos postos de trabalho". 

"E eu não recomendaria a nenhum líder político que desprezasse ou menorizasse o facto de 175 mil pessoas terem tido uma oportunidade de trabalho. Eu responsabilizo quem trouxe o resgate, o memorando e a recessão a Portugal, por aquilo que aconteceu do ponto de vista do desemprego", afirmou Paulo Portas.


O vice-primeiro-ministro argumentou que, "depois daquele resgate e daquela recessão, não era possível que o desemprego não aumentasse - aumentou em todo o lado nos países que infelizmente caíram na bancarrota".

"Do ponto de vista estatístico, e os critérios não se alteraram, a única coisa que é relevante é que o desemprego, que chegou a estar 17,5%, está neste momento na casa dos 13%", afirmou, ressalvando que "os desempregados não são números" e que é preciso "humanizar, com muita sensibilidade, esta discussão e fazê-la rigorosamente".


Sem essa humanização, apontou Portas, "aqueles que ainda não tiveram uma oportunidade de emprego", como jovens, "mulheres a partir de uma certa idade" ou "desempregados de longa duração", acham "que os políticos vivem noutro planeta que não o da casa deles, onde o indicador macro não chegou ao micro, à vida deles".

"Há um lado nesta matéria que é puramente estatístico e há um lado que é a verdadeira a pergunta: qual é a tendência do desemprego em Portugal? É esta que interessa aos 13% que ainda estão no desemprego e que ainda não encontraram um posto de trabalho", disse.


O vice-primeiro-ministro lamentou ainda que os jovens estejam a pagar uma dívida que não é sua.

“O resgate tem origem na dívida e na responsabilidade da dívida. Os jovens nem sequer autorizaram a dívida. É uma geração apanhada com enorme violência por um resgate que não merecia”.





Na entrevista desta terça-feira, o vice-primeiro-ministro e presidente do CDS-PP garantiu ainda aos portugueses que nos próximos quatro anos não vão ouvir falar da troika e afirma que pôr fim à sobretaxa de IRS é uma "prioridade absoluta".

“Nos próximos quatro anos não vamos ouvir falar de troika, vamos ouvir falar de Portugal”, afirmou Paulo Portas, acrescentando que “ninguém sonha o que é governar um país sem reservas”.


O vice-primeiro-ministro garantiu ainda que a sua “prioridade absoluta é eliminar a sobretaxa [de IRS]" e que depois serão recuperados “os salários da administração pública a 20% ao ano”.
 

Sucessão no CDS-PP “não está aberta”



O também presidente do CDS-PP afirmou que a questão da sucessão da liderança dos centristas "não está aberta", estando a lutar por ganhar e merecer uma "maioria duradoura" para que "o país não tenha sarilhos".

"Sou candidato, com o primeiro-ministro, que é o líder da coligação, a um mandato em que o centro-direita, dois partidos moderados, pretendem dar a Portugal uma maioria duradoura. Estou a lutar por ganhar e a lutar por merecer uma maioria para que o país não tenha sarilhos nem problemas", afirmou Paulo Portas.


Paulo Portas afirmou que a sucessão da liderança do CDS-PP é uma questão que "não esta aberta, não foi aliás aberta por ninguém", mas apontou para a qualidade dos quadros do partido.

"O CDS tem hoje em dia, a meu ver, entre os 35 e os 45 anos, mulheres e homens políticos de muito boa qualidade", afirmou.


Questionado sobre se estava a referir-se a Assunção Cristas, respondeu: "Podia falar do Nuno Melo, podia falar da Assunção Cristas, podia falar da Cecília Meireles, podia falar do Luís Pedro Mota Soares, do João Almeida, do Adolfo Mesquita Nunes, do Telmo Correia, do Nuno Magalhães".



"Mal de um partido democrático que não tenha escolhas", afirmou, considerando que sempre soube e gostou de recrutar quadros "com mérito e qualidade".

Portas reiterou sobre a sucessão: "Não está aberta, não foi aberta por ninguém, estou aqui para exercer o mandato a que me candidato, e acho que o CDS tem muita gente boa lá dentro", declarou.


O vice-primeiro-ministro afirmou que PSD e CDS-PP vão lutar até ao limite das suas forças para "dar ao país uma maioria que seja duradoura e que seja consistente", para dar "rumo ao país e não pôr em risco o que Portugal alcançou nos últimos quatro anos do ponto de vista de condições internas e internacionais para poder ter maior confiança e maior confiança".

"O compromisso que tenho é com o PSD, não vou estar com certeza a falar de cenários, como o primeiro-ministro não falou e a meu ver muitíssimo bem", declarou.