O presidente do CDS-PP, Paulo Portas, defende num livro publicado neste sábado que imprimiu uma vocação governativa e um "pragmatismo de crescimento" ao partido, que se abriu para acompanhar "os novos tempos e modos".

"Se o CDS não tem feito esta opção pelo 'arco da governabilidade', o nosso sistema de governo correria o risco de se limitar ao PSD e ao PS, o que nos aproximaria do rotativismo oitocentista. A pertença ao 'arco da governabilidade' não é uma renúncia às convicções, é exatamente o oposto: a utilidade das nossas convicções, mediante a circunstância escolhida pelo eleitorado, que é a circunstância do compromisso".


Num livro comemorativo dos 40 anos do partido, que é disponibilizado hoje na Internet, com textos de todos os antigos líderes, Diogo Freitas do Amaral pacifica-se com o partido que abandonou, afirmando que continuam "separados, mas irmãos" e José Ribeiro e Castro defende apenas coligações com o PSD, com quem, "em teoria" o partido até se podia fundir.

O livro conta com textos de Manuel Monteiro, Adriano Moreira, José Ribeiro e Castro, Diogo Freitas do Amaral e Paulo Portas, e para contemplar a liderança de Francisco Lucas Pires, já falecido, foi incluído um texto de António Gomes de Pinho. Entre os antigos presidentes, abandonaram o partido Freitas do Amaral, Lucas Pires e Manuel Monteiro.

No seu depoimento, Freitas do Amaral dá uma explicação aos militantes do CDS sobre a sua desfiliação, recordando o voto a favor ao Tratado de Maastricht, em 1992, contra a liderança de Manuel Monteiro, em defesa da construção europeia.

Freitas quis sublinhar neste depoimento "que tanto o CDS inicial, como o atual são de raiz democrata- cristã" e que "se, a dada altura, o partido caminhou mais para o centro- direita, e eu mais para o centro- esquerda", todos se mantiveram "honestamente dentro do amplo espectro abrangido pela Democracia Cristã europeia e mundial".

"Ou seja: ninguém traiu ninguém. Todos podemos, pois, olhar- nos, falar- nos e cumprimentar- nos uns aos outros sem qualquer embaraço ou desconfiança. Continuamos irmãos, embora separados. Que o mesmo é dizer: separados, mas irmãos".


O capítulo de Paulo Portas, eleito líder em oito ocasiões, intitula-se "Realismo e Crescimento" e nele o atual presidente do partido e vice-primeiro-ministro recorda e sublinha "carismático voto contra" a Constituição de 1975 e considera que "o CDS deu à democracia uma ala direita sem a qual o regime ficaria manco".

"O CDS ajudou a trazer a direita portuguesa para o novo regime, centrando-a e representando-a sempre com moderação. O CDS contribuiu notavelmente para a definição das fronteiras do regime, evitando qualquer extremismo ou populismo relevante na metade direita do espectro político", afirma.

Portas lembra os "anos mais dramáticos" do CDS, após a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva à frente do PSD e que valeram aos centristas a designação de "partido do táxi", pelo escasso número de deputados que elegeu, considerando que é uma expressão que "acaba por ser injusta precisamente para esses deputados, e só pode ser lida em sua homenagem".

No texto, Portas descreve a refundação feita depois por Manuel Monteiro como necessária, embora diga ter percebido anos mais tarde, quando começou a "conhecer melhor o partido por dentro, que uma parte dos militantes percebera essa refundação como uma verdadeira rutura" e diz que o seu primeiro desafio foi o da "pacificação histórica do CDS".

Portas argumenta que se "a matriz do partido era democrata-cristã, isso só podia ser lido e interpretado com um largo olhar de inclusão e abertura" e que "no CDS caberiam também os liberais, os conservadores, os humanistas, os personalistas, os reformadores e os centristas".

"Este 'pragmatismo de crescimento' não mais deixaria de prevalecer, e o CDS passou mesmo a cultivar uma atitude de "procura do outro", ou seja, chamar mais e mais quadros para o seu perímetro, dar- se a conhecer e integrar opiniões externas, com pequenos ou grandes passos para garantir que compreendia e acompanhava os novos 'tempos e modos'", defende.

No capítulo escrito por Ribeiro e Castro, o antigo líder considera que "o PSD é o único dos dois partidos com que o CDS pode coligar-se".

"Creio mesmo que, quando ocorre, há uma certa naturalidade nessa coligação, como a marcante experiência histórica da AD bem ilustrou e confirmou. Em teoria, até poderiam, um dia, fundir-se - e isso mataria a questão da rivalidade".