O presidente cessante do CDS-PP, Paulo Portas, afirmou este sábado que o Banco de Portugal não tem conseguido adquirir competências que o habilitem a vender bancos e continua a ter "falhas significativas" na supervisão.

"Eu acho que a resolução é melhor para os contribuintes do que a nacionalização, mas dito isto, é preciso acrescentar, com a naturalidade de quem está a expor o problema, que o Banco de Portugal não tem conseguido instalar competências e capacidades transacionais, que o habilitem a vender bancos, que é uma das suas tarefas recentes, e continua a ter falhas significativas na área da supervisão", afirmou Paulo Portas perante o 26.º Congresso do CDS.

Portas disse estar "à vontade" para aquelas considerações, já que aceitou a recondução do governador, Carlos Costa, "apenas e só" porque se estava "em plena venda do Novo Banco": "Essa venda ainda não aconteceu. Eu acho que é importante que cada um saiba perguntar-se a si próprio se é parte da solução ou parte do problema".

Numa outra passagem do seu discurso em que aludiu a algumas preocupações com a Europa, Portas referiu-se ao sistema bancário português.

"Bem sabemos que o ajustamento português não teve verba para restruturar o sistema financeiro, bem sabemos que visto de Frankfurt e Bruxelas há a convicção de que a Europa tem bancos a mais, e de que a Península Ibérica é uma unidade de mercado e como tal os bancos portugueses devem agregar-se", disse.

No entanto, alertou, as análises de crédito e risco em relação às necessidades das empresas portuguesas são diferentes caso sejam feitas em Portugal ou em Espanha.

"Peço a todos que tenham sentido estratégico na reestruturação do nosso sistema financeiro, seria indesejável que ficássemos com um sistema financeiro que se dividisse apenas entre Espanha de um lado e Caixa Geral de Depósitos de outro", alertou.

Para Portas, "e ao contrário do que pensam arautos da geringonça", o problema de Portugal não é ter capitalismo a mais mas não ter grupos privados portugueses suficientemente fortes para se candidatarem e vencerem as privatizações relevantes.

"Essa é uma herança do PREC (Processo Revolucionário em Curso) que Portugal teve e Espanha não", disse.

Portas pede que se evite “judicialização da relação” Portugal/Angola 

Durante a sua intervenção, Paulo Portas apelou aos órgãos de soberania para evitarem "a tendência para a judicialização da relação entre Portugal e Angola", considerando-a "um caminho sem retorno" e procurarem "em todas as frentes o compromisso".

"É um apelo dirigido aos órgãos de soberania, porque é deles a atribuição, para terem isto presente, para se lembrarem destes factos, e para, dentro do que a Constituição dispõe e a lei impõe, evitarem a tendência para a judicialização da relação entre Portugal e Angola - esse seria um caminho sem retorno -,e procurarem em todas as frentes o compromisso".

O apelo foi feito "com a autoridade que quem trabalhou muito para melhorar as relações com Angola": "Sabendo que Portugal é importante para os angolanos e que Portugal não está em condições de substituir Angola na sua política externa, pelo número de portugueses que lá vivem e que merecem o nosso respeito, pelas 2 mil empresas que estão em Angola e que merecem a nossa proteção, pelas 10 mil empresas que exportam para Angola e que nós não podemos esquecer, pela interpenetração das duas economias e dos investimentos dos dois países", disse, a introduzir o apelo.

"Nunca se esqueçam disto: o lugar que Portugal deixar de ocupar em Angola vai ser ocupado por outros países, se calhar pelos países que se empenham discretamente em prejudicar as relações entre Portugal e Angola são exatamente os mesmos que gostariam de nos substituir em Luanda", declarou o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-vice-primeiro-ministro.

Para Paulo Portas, "o método do compromisso é o que melhores resultados produz naqueles países e Estados que têm em afinidades eletivas, e entre Portugal e Angola há afinidades eletivas".

O líder cessante do CDS introduziu a referência a Angola no discurso  dizendo que queria deixar "uma palavra, por ventura politicamente incorreta" sobre aquele país.

Portas justificou essas considerações sobre Angola e as relações entre os dois países, afirmando que é o que corresponde "ao interesse nacional".

"E só o interesse nacional é do nosso serviço e da nossa missão", declarou.