“O que acho estranho é que em candidatos como Sampaio da Nóvoa, estando o país neste estado façam tantos apelos à estabilidade. Estabilidade de quê? De quem ganha 200 euros durante cinco anos? Está estável, mas é triste”

O antigo vice-presidente da câmara do Porto pelo PSD lançou a crítica e, ainda antes da resposta de Nóvoa, defendeu outro caminho: “Eu, pela minha parte, apelo a alguma instabilidade na política, para dar estabilidade às pessoas”.

 

Até porque, frisou, se a estabilidade política significar manter “PPP milionárias à custa do IRS de quem as paga” ou “os bens da corrupção na mãos de quem a fez”, de nada vale.

 

Sampaio da Nóvoa contra-argumentou:

 

“O ponto da estabilidade não é esse, estamos a jogar um pouco nas palavras. Estabilidade não é estagnação, é um processo de mudança, consistente, coerente”.

Este foi, apesar disso, um debate cordial e com vários pontos de acordo entre os dois adversários, como a posição favorável quanto à adoção por casais do mesmo sexo e quanto à necessidade de combate à corrupção.

 

“Promulgava sem nenhum problema” o diploma sobre a adoção por casais homossexuais, disse Paulo Morais, entendendo que Portugal “tem excesso de legislação sobre o comportamento das pessoas”, quer em matérias sexuais, quer religiosas. Sampaio da Nóvoa também promulgaria, “sem nenhuma hesitação”. “É uma questão central do que é um país do século XXI”, defendeu.

Já questionado sobre as críticas de Freitas do Amaral à sua decisão de entrar na corrida às presidenciais, ontem, na TVI - quando o ex-candidato presidencial disse que "ninguém conhece" Sampaio da Nóvoa, não questionando "como é que alguém perto dos 60 anos que nunca fez política entre para ser candidato à Presidência da República -, Sampaio da Nóvoa lembrou que tem 40 anos de serviço público.

"É para mim muito estranho que alguém considere que política é clube fechado onde tem de se fazer carreira para ter a possiblidade de aceder ao lugar de PR. Se assim fosse, a Constituição" seria diferente. "Venho para renovar essa dimensão política e não fechar [o clube] nos mesmos de sempre", declarou.

 

"Não chega dar o exemplo"

A corrupção foi um tema que marcou grande parte do debate, com o jornalista Paulo Magalhães a recordar as declarações de Paulo Morais sobre a "classe política claramente corrupta". O candidato presidencial reiterou que o Parlamento "é uma central de negócios, os deputados ligados a negócios ou pela via de ligações a grupos económicos ou sociedades de advogados ligadas a grupo de negócios. É o pão nosso de cada dia e isto acontece em todos os grupos parlamentares", atirou.

 

Nóvoa também concordou que "é evidente que se reconhece que há problemas e que não está assegurada separação de determinadas decisões". "Muitas das denúncias que Paulo Morais tem feito são certas", elogiou.

"O Presidente da República tem dimensão muito importante: do exemplo, e que é muito forte naquilo que foi a minha governação da Universidade de Lisboa e que aplicou sempre planos de prevenção de riscos e corrupção", atestou ainda.

 

Paulo Morais logo se apressou a contestar, mais uma vez, as palavras utilizadas pelo seu adversário: "Discordo que chegue apenas dar o exemplo, tem de exigir que toda a classe política respeite. As sociedades de advogados são um problema central que próximo PR tem de atacar (...) É tarefa do PR porque essas sociedades de advogados fazem as leis, dão pareceres".

 

Nóvoa replicou que o chefe de Estado tem, sim, "de ter grande atenção sobre este tema". "Estamos de acordo". Morais interrompeu-o sublinhando que é preciso ter "atenção e intervenção".

O outro candidato continuou, dizendo que o PR "tem de assegurar que a Procuradoria-geral da República tem meios adequados para que se procedam às investigações e apuramento de factos". "Mas o PR, e gostaria de ir um passo à frente, tem de ser capaz de promover país de maior igualdade, justiça e mais oportunidades. O Paulo Morais saberá melhor do que ninguém que país onde há mais iguadade são países onde há menos corrupção", concluiu.

O vice-presidente da câmara do Porto frisou que a Justiça "tem meios ridículos", dando o exemplo do Orçamento do Estado para 2015: "Há menos dinheiro para toda a justiça do que verbas disponíveis do Ministro das Finanças para tapar buracos".

"O poder judicial tem de ser indepentizado, o orçamento da Justiça tem de ser quatro a cinco vezes superior. Se for Presidente, não aceito 600 milhões de orçamento. E não é por acaso que justiça tem poucos meios, é para não investigar. O poder executivo domina o poder judicial"

O candidato mostrou, ainda, "deceção" por, passado mais de um mês da tomada de posse, o primeiro-ministro António Costa ainda não ter apresentado o Orçamento do Estado para 2016. "Espero que seja corrigido muito rapidamente. A minha expectativa é perceber se PPP vão acabar, senão as finanças vão ficar depauperadas até 2035".