A língua portuguesa pode ser traiçoeira e o debate entre os candidatos presidenciais Paulo Morais e Sampaio da Nóvoa, na TVI24, foi pródigo em expressões que podem ser interpretadas de maneiras diversas, dando com isso impulso ao confronto de ideias entre os dois adversários.
 

“O que acho estranho é que em candidatos como Sampaio da Nóvoa, estando o país neste estado façam tantos apelos à estabilidade. Estabilidade de quê? De quem ganha 200 euros durante cinco anos? Está estável, mas é triste”

 
O antigo vice-presidente da câmara do Porto pelo PSD lançou a crítica e, ainda antes da resposta de Nóvoa, defendeu outro caminho: “Eu, pela minha parte, apelo a alguma instabilidade na política, para dar estabilidade às pessoas”.
 
Até porque, frisou, se a estabilidade política significar manter “PPP milionárias à custa do IRS de quem as paga” ou “os bens da corrupção na mãos de quem a fez”, de nada vale.
 
Sampaio da Nóvoa contra-argumentou:
 

“O ponto da estabilidade não é esse, estamos a jogar um pouco nas palavras. Estabilidade não é estagnação, é um processo de mudança, consistente, coerente”.

 
Este foi, apesar disso, um debate cordial e com vários pontos de acordo entre os dois adversários, como a posição favorável quanto à adoção por casais do mesmo sexo e quanto à necessidade de combate à corrupção.
 
“Promulgava sem nenhum problema” o diploma sobre a adoção por casais homossexuais, disse Paulo Morais, entendendo que Portugal “tem excesso de legislação sobre o comportamento das pessoas”, quer em matérias sexuais, quer religiosas. Sampaio da Nóvoa também promulgaria, “sem nenhuma hesitação”. “É uma questão central do que é um país do século XXI”, defendeu.

Já questionado sobre as críticas de Freitas do Amaral à sua decisão de entrar na corrida às presidenciais, ontem, na TVI - quando o ex-candidato presidencial disse que "ninguém conhece" Sampaio da Nóvoa, não questionando "como é que alguém perto dos 60 anos que nunca fez política entre para ser candidato à Presidência da República -, Sampaio da Nóvoa lembrou que tem 40 anos de serviço público.

"É para mim muito estranho que alguém considere que política é clube fechado onde tem de se fazer carreira para ter a possiblidade de aceder ao lugar de PR. Se assim fosse, a Constituição" seria diferente. "Venho para renovar essa dimensão política e não fechar [o clube] nos mesmos de sempre", declarou.
 

"Não chega dar o exemplo"

 
A corrupção foi um tema que marcou grande parte do debate, com o jornalista Paulo Magalhães a recordar as declarações de Paulo Morais sobre a "classe política claramente corrupta". O candidato presidencial reiterou que o Parlamento "é uma central de negócios, os deputados ligados a negócios ou pela via de ligações a grupos económicos ou sociedades de advogados ligadas a grupo de negócios. É o pão nosso de cada dia e isto acontece em todos os grupos parlamentares", atirou.
 
Nóvoa também concordou que "é evidente que se reconhece que há problemas e que não está assegurada separação de determinadas decisões". "Muitas das denúncias que Paulo Morais tem feito são certas", elogiou.

"O Presidente da República tem dimensão muito importante: do exemplo, e que é muito forte naquilo que foi a minha governação da Universidade de Lisboa e que aplicou sempre planos de prevenção de riscos e corrupção", atestou ainda.
 
Paulo Morais logo se apressou a contestar, mais uma vez, as palavras utilizadas pelo seu adversário: "Discordo que chegue apenas dar o exemplo, tem de exigir que toda a classe política respeite. As sociedades de advogados são um problema central que próximo PR tem de atacar (...) É tarefa do PR porque essas sociedades de advogados fazem as leis, dão pareceres".
 
Nóvoa replicou que o chefe de Estado tem, sim, "de ter grande atenção sobre este tema". "Estamos de acordo". Morais interrompeu-o sublinhando que é preciso ter "atenção e intervenção".

O outro candidato continuou, dizendo que o PR "tem de assegurar que a Procuradoria-geral da República tem meios adequados para que se procedam às investigações e apuramento de factos". "Mas o PR, e gostaria de ir um passo à frente, tem de ser capaz de promover país de maior igualdade, justiça e mais oportunidades. O Paulo Morais saberá melhor do que ninguém que país onde há mais iguadade são países onde há menos corrupção", concluiu.

O vice-presidente da câmara do Porto frisou que a Justiça "tem meios ridículos", dando o exemplo do Orçamento do Estado para 2015: "Há menos dinheiro para toda a justiça do que verbas disponíveis do Ministro das Finanças para tapar buracos".


"O poder judicial tem de ser indepentizado, o orçamento da Justiça tem de ser quatro a cinco vezes superior. Se for Presidente, não aceito 600 milhões de orçamento. E não é por acaso que justiça tem poucos meios, é para não investigar. O poder executivo domina o poder judicial"


O candidato mostrou, ainda, "deceção" por, passado mais de um mês da tomada de posse, o primeiro-ministro António Costa ainda não ter apresentado o Orçamento do Estado para 2016. "Espero que seja corrigido muito rapidamente. A minha expectativa é perceber se PPP vão acabar, senão as finanças vão ficar depauperadas até 2035".