A primeira intervenção do PS no debate do programa de Governo da coligação PSD/CDS-PP coube a Pedro Nuno Santos e não a António Costa, que não está sequer inscrito para falar, o que até originou um incidente entre o PSD e o Presidente da Assembleia da República, o socialista Ferro Rodrigues. Quando finalmente tomou a palavra, Pedro Nuno Santos começou por distinguir aquilo que separa os socialistas da direita. Na resposta, Passos Coelho carregou na ironia, prontamente, considerando que é "penoso" ver a justificação ensaiada pelos socialistas. 

"Importa avaliarmos não só as semelhanças, mas a distância, a larga distância entre o programa PS e PSD/CDS. Os nossos programas são mesmo muito distantes e todos nós sabemos que o são", afirmou o socialista.

A manutenção de Portugal no euro e na UE foi dada como a "única" aproximação das três forças políticas. De resto, "mesmo sobre a Europa a visão diferente". Pedro Nuno Santos disse que o PS não aceita a UE como ela está e união económica e monetária como ela está. "Hoje não está em causa defender só a Europa em Portugal. Trata-se sobretudo de defender Portugal na Europa", argumentou.

Passos Coelho, na resposta, foi seco e avisou que ia sê-lo: "Creio francamente que a campanha eleitoral já acabou. Serei mais seco na resposta que vou dar". E partiu ao ataque, considerando "infelizes" os exemplos dados pelo deputado do PS.

"Ao recusar a maioria maior que é a maioria europeia verdadeiramente é o PS que está a afastar-se do centro político e a radicalizar a sua posição e que deixa em risco aquilo que são os nossos esforços de recuperação consistente", atirou. 

Depois, fez questão de lembrar quem ganhou as eleições há um mês: "Aplicámos de facto um programa de grande dificuldade ao longo destes anos, só valoriza o facto de termos ganho as eleições e de não as termos perdido".
"Depois de quatro anos de oposição cheia de cedências ao facilitismo e ao irrealismo, depois de mudarem o líder do vosso partido que tinha ganho por poucochinho as eleições europeias e de procurarem todos os dias que a diferença seria amplitude, é quase penoso ver-vos a explicar que nós é que fomos afastados do centro e castigados e que os socialistas é que foram bafejados pelo mérito"


Antes, Pedro Nuno Santos ainda tinha dito que outros pontos que distanciam o PS da coligação são os rendimentos dos portugueses. "Ao contrário da coligação que entende desvalorização salarial como fundamental, o PS quer uma economia capaz de pagar melhores salários. Isso só se faz investindo na ciência, na qualificação, produção de conhecimento e sua transferência para a economia". 

Outra diferença enumerada foi o Estado Social: "Há também outra maioria neste Parlamento, que defende o Estado público, universal e tendencialmente gratuito". E, com isso, deu o exemplo das taxas moderadoras que o Governo agravou e a escola pública que, no entender do PS, degradou. 

"Há uma posição clara de modelo social que nos separa. O PS não quer hospitais ou escolas de fraca qualidade. Não é a troika, nem é o memorando que justifica o projeto liberal que foi implementado, que está cá e continua"

Foi aí que Passos Coelho respondeu, carregando então na ironia, nos adjetivos e na lembrança da história recente do PS. 

Luís Montenegro, líder da bancada social-democrata, também devolveu as críticas feitas pela a bancada socialista. Montenegro criticou os "arranjinhos" do PS com o Bloco e o PCP, acusando os socialistas de quererem "adulterar" os resultados das eleições. E vincou que os portugueses foram claros nas urnas: elegeram Passos Coelho como primeiro-ministro e não foi por "poucochinho", mas com "vitória folgada".

"Um ganhou e outro perdeu e nenhum dos dois foi por poucochinho. Foi uma vitória folgada. Não há ninguém com mais legitimidade democrática para se sentar aí [dirigindo-se a Passos Coelho]."

Depois, o social-democrata dirigiu-se ao líder socialista, dizendo a António Costa que "foi o povo que o sentou" no lugar da oposição e apelou ao secretário-geral do PS para "respeitar a vontade livre e democrática do povo português".

"António Costa está sentado na mais representativa das bancadas da oposição, no lugar em que o povo quis que estivesse. Foi o povo que o sentou aí [apontando para António Costa]."