O presidente do PSD criticou este sábado o Governo pela ausência de estratégia a médio prazo no Plano Nacional de Reformas apresentado esta semana para o período até 2020, afirmando que o “vazio” oferecido ao país “não é tolerável”. Palavras deixadas este sábado no encerramento das primeiras Conferências da Liberdade, organizadas pela concelhia social-democrata de Santarém.

“No Programa Nacional de Reformas vemos muitas medidas, muitas das quais merecem a nossa concordância, mas não vemos uma estratégia para os próximos anos. Não é certamente ser mais próspero, ter melhores escolas, melhores estradas, melhores vias férreas, melhores equipamentos. Ter bons equipamentos não é uma estratégia.”

Para o líder social-democrata, esperava-se que as perspetivas de médio prazo apresentadas pelo Governo liderado pelo socialista António Costa “traduzissem uma estratégia clara”, que “aponte as causas dos problemas e dos estrangulamentos” e que “traduza uma vontade de fazer desenvolver o país nos próximos anos num determinado sentido”.

Passos Coelho reafirmou o seu ponto de vista, de que a economia só poderá crescer se o país for capaz de atrair investimento externo, admitindo que possa haver quem pense que é possível pagar dívida e gerar emprego com uma economia “mais estatizada, mais pública”.

“Podemos discutir, mas é preciso saber qual é a proposta e a estratégia que se nos oferece”, disse, considerando que o “vazio que foi oferecido quer com o Programa Nacional de Reformas quer com o Programa de Estabilidade não é tolerável”.

O programa de estabilidade é, no seu entender, “uma mistificação que ignora totalmente as condições reais de que partimos”.

“Se podemos caracterizar uma estratégia ao Governo e à maioria é de que estão numa fuga em frente, sem olhar para a realidade, aumentando dramaticamente os riscos a que vão sujeitar toda a sociedade portuguesa, talvez na esperança de que alguma coisa muita errada que possa acontecer em todo o espaço europeu venha criar uma solução que o Governo não é capaz de propor por si próprio para Portugal.”

Para Passos Coelho, este é “um caminho perigoso”, que corresponde a “uma cegueira que já foi seguida no passado, mas que hoje não tem desculpa para ser repetida”.

“Aquilo que nos é proposto é que façamos de conta que não temos o legado que temos, que os dados observados no último trimestre de 2015 não existiram, que os dados que estão projetados nas previsões que refletem não é apenas otimismo, é um excesso de otimismo, impossível de ser cumprido ao longo do tempo que nos resta este ano”, afirmou.

Passos Coelho classificou de “fantasia” a promessa de redução da despesa com a existência de menos funcionários públicos ao mesmo tempo que se anuncia a contratação de mais médicos, mais enfermeiros, mais funcionários judiciais. “Nada desta fantasia tem aderência à realidade”, declarou.

"Espantado" com editorial de jornal que mandou calar Sócrates

Ainda em Santarém, Passos Coelho saiu em defesa de José Sócrates. O antigo chefe do Governo disse que ficou “espantado” com um editorial de “um jornal de referência” que esta semana mandou calar um ex-primeiro-ministro, considerando que este “não é um bom sintoma de democracia”. O líder do PSD destacou que o “populismo, o radicalismo e a demagogia têm progredido de forma assinalável nos últimos anos”.

“Achei estranho”, disse, lembrando que discordou “profundamente” do seu antecessor, sendo por isso “absolutamente isento” na observação que fez.

“O que terá acontecido na sociedade portuguesa para que um jornal de referência faça um editorial a mandar calar um político, quando muito tolerando que ele se possa defender da justiça na comunicação social? Deveria ser ao contrário, ele deveria defender-se da justiça na justiça e recorrer à comunicação social e ao público em geral para confrontar as suas ideias pois não ficou diminuído de as ter.”

O líder do PSD referia-se ao jornal Público que no dia 21 deste mês fez um editorial chamado "Cala-te, Sócrates", criticando- o por não refrear os seus pensamentos sobre a actualidade política portuguesa. Sócrates afirmou esta semana que nunca aceitaria ser primeiro-ministro sem eleições, como aconteceu com António Costa.

Para Passos Coelho, “não é um bom sintoma de democracia que haja na opinião editorial de um jornal de referência a convicção de que o melhor que ele podia fazer era calar-se”.

O líder social-democrata deu outro exemplo de intolerância, considerando que a “desqualificação” de que a oposição é alvo “todos os dias, todas as semanas”, no parlamento “não é um sinal de amadurecimento da democracia”.

“Porque é que, da parte de alguns, o insulto se sobrepõe à racionalidade? Mudou o Governo, mudou o parlamento, quem esteve no Governo está agora na oposição, mas continua a ser objeto de intolerância. Já não basta à maioria determinar a opção de Governo, é preciso também desqualificar a oposição.”

"Não é sinal de crispação que não estejamos de acordo, crispação é quando o preconceito toma conta da lógica e as pessoas, em vez de confrontarem diferentes projetos ou opiniões, se insultam e fazem de conta que se toleram. Isso não é um sinal de aprofundamento da nossa democracia e de respeito pela liberdade", declarou.

A concelhia de Santarém do PSD realizou, ao longo de todo o dia de hoje, um conjunto de conferências que abordaram temas como "Um retrato de Portugal", por António Costa Pinto, "Liberdade e Política", com Álvaro Beleza, Alexandra Ferreira, Conceição Pequito e Manuel Meirinho, "Liberdade Económica e Social", com Alberto da Ponte, João Proença e João Machado, "Liberdade Financeira", com Luís Campos e Cunha, Jorge Marrão e Pedro Reis.

O almoço teve como convidado o antigo Presidente da República Ramalho Eanes para um "balanço de 40 anos de democracia".