O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, sugeriu hoje que a forma como decide possa «desagradar» a «pessoas com alguma influência» e desafiou quem está por trás das acusações sobre os seus rendimentos a apresentar provas. O governante fez estas afirmações esta sexta-feira, durante o debate quinzenal, onde foi confrontado com as questões dos deputados sobre o caso Tecnoforma.

Antes, Passos Coelho já tinha garantido que não recebeu qualquer valor da Tecnoforma enquanto foi deputado, até 1999, e que só colaborou com esta empresa após o ano de 2001.

Na sua intervenção inicial no debate quinzenal, na Assembleia da República, Passos Coelho afirmou que é «uma pessoa remediada», mas que isso não o condiciona nas suas decisões: «Portanto, nunca na minha vida em lugares públicos ou de outra natureza exerci ou decidi senão de acordo com a minha consciência, mesmo que isso possa desagradar a algumas pessoas com alguma influência».

«Quero, no entanto, dizer ao parlamento que se é verdade, portanto, que as acusações que me fazem não têm fundamento, me é muito difícil apresentar elementos de prova e fotografias de rendimentos fantasmas que eu não tenho. Espero, portanto, que aqueles que sustentam as suas acusações o possam publicamente comprovar», acrescentou.

Passos Coelho referiu ter sido acusado de receber pagamentos «durante anos sem declarar» e «de compadrio, de influência, de falsificação de documentos», e reiterou que espera que essas acusações «possam ser comprovadas por quem as faz».

O primeiro-ministro assinalou que «os órgãos próprios não as comprovaram», numa alusão ao arquivamento do inquérito relativo à denúncia anónima que deu entrada na Procuradoria-Geral da República, segundo a qual teria recebido pagamentos do grupo Tecnoforma incompatíveis com o regime de exclusividade enquanto deputado.

Mais à frente, o chefe do executivo PSD/CDS-PP voltou a sugerir que «alguém importante» está a procurar incriminá-lo, a propósito do acesso da comunicação social a declarações suas de IRS.

«Hoje li num jornal que declarações de rendimentos, que são elementos de reserva pessoal a que as Finanças estão obrigadas a sigilo, terão sido acedidas por senhores jornalistas. Li e não acreditei», declarou Passos Coelho.

«A ideia de que existam declarações que eu não apresentei sequer aqui ao parlamento e a que senhores jornalistas tenham tido acesso, a acontecer, representa uma violação do Estado de direito e seguramente que alguma coisa não funciona bem quando alguém importante entende que é preciso fazer insinuações», considerou Passos Coelho, defendendo que isso deve ser motivo de reflexão, «quer se trate do atual primeiro-ministro, quer se trate de outro cidadão».

Antes, Passos Coelho qualificou de «mistificação» a ideia de que «tenha, durante anos consecutivos, acumulado rendimentos que ninguém conseguiria explicar sem evidência de uma alteração sensível quer do seu património quer dos seus estilos de vida».

O primeiro-ministro disse que quem o conhece sabe que não tem «outro património senão aquele que está declarado», mencionou que ainda está a pagar empréstimos «de aquisição de casa própria», e que as suas economias não atingem «os valores de poupança que devem ser declarados».

«Não tenho, portanto, outros rendimentos senão os que aufiro do meu trabalho. Não possuo nenhuma riqueza acumulável. Não tenho em nome de filhas, primos ou outra família quaisquer bens», afirmou, recebendo das bancadas da maioria PSD/CDS-PP palmas que se prolongaram por meio minuto.