O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, afirmou hoje que é preciso um “esclarecimento tão transparente quanto possível” sobre a alegada interferência direta do primeiro-ministro nos negócios entre a empresária angolana Isabel dos Santos e o setor bancário.

“Não temos boa memória dos tempos em que os governos e os primeiros-ministros se envolviam em processos societários que não respeitam ao Estado, respeitam aos privados, e era muito importante que houvesse um cabal esclarecimento dessa matéria”, disse Passos Coelho, à margem de uma visita à Feira do Folar de Valpaços, Vila Real.

Para o líder do PSD, é preciso que os governos “salvaguardem a sua independência e a sua isenção de processos que não estão sob a sua alçada direta” e, por isso, espera que haja um “esclarecimento cabal desta matéria”.

O Expresso noticiou que António Costa e a empresária angolana, para ultrapassar o impasse no BPI, reuniram-se em Lisboa e terão conciliado posições com o grupo financeiro espanhol La Caixa, com a filha do Presidente de Angola a vender a sua participação no BPI aos espanhóis e o BPI a ceder as suas ações do banco angolano BFA a capitais angolanos.

Já no sábado, o vice-presidente do grupo parlamentar do PSD Leitão Amaro anunciou um pedido de esclarecimento e referiu que vão ser formuladas oito perguntas ao Governo socialista sobre as alegadas interferências nos negócios entre a empresária angolana Isabel dos Santos e o setor bancário.

“Aquilo que não é comum, e eu seguramente nunca o fiz no passado, é haver notícia pública de que haja uma intervenção direta do primeiro-ministro em assuntos que não são matéria de Governo”, frisou Passos Coelho.

O líder social-democrata defendeu que o Governo deve seguir com atenção a situação do sistema financeiro mas, frisou, esta não é matéria em que o “Governo se deva envolver”

“E como houve notícias e esta última não foi a única mas foi aquela que deu de forma mais detalhada ideia de que o próprio primeiro-ministro teria autorizado operações que são operações de natureza privada, seja relativamente ao BPI ou ao BCP, nós estranhamos porque o Governo e o primeiro-ministro não têm nenhuma competência direta nestas matérias e não é bom que tenham”, sustentou.

Questionado ainda sobre a “espanholização” ou a influência espanhola na banca portuguesa, o presidente do PSD defendeu que “há interesse em haver diversificação de capitais no setor financeiro” como aliás, afirmou, “já há hoje”.

António Costa garantiu no sábado que Portugal tem um “sistema financeiro sólido”.

“Espero que o primeiro-ministro tenha razão. O país fez muito para que o sistema financeiro pudesse realmente inspirar confiança”, afirmou Passos Coelho aos jornalistas, lembrando que, quando chegou ao Governo em 2001, o “setor financeiro estava à beira da rotura” e que, por isso, “o Estado teve de disponibilizar meios financeiros para ajudar o sistema financeiro a recapitalizar-se, a ganhar outro músculo e credibilidade”.

Quanto às críticas de Costa ao Governo PSD/CDS, que acusou de “enganar” os portugueses “com a conversa da saída limpa [do programa de resgate e assistência financeira], escondendo “debaixo da mesa o estado em que se encontrava o sistema financeiro”, Passos Coelho apenas disse que tem “uma boa resposta para lhe dar” se a questão for levantada no Parlamento.

O líder do PSD visitou a Feira de Valpaços, onde durante três dias se venderam cerca de 50 toneladas de folar, falou com comerciantes e visitantes, recebeu beijos e abraços e ouviu, por várias vezes, o pedido para “voltar ao Governo”.