Chegou meia hora antes do previsto à arruada numa rua do Montijo, marcada esta manhã. Os jornalistas receberam a informação, bem cedo, de que afinal esta terça-feira, ao terceiro dia de campanha oficial, Passos Coelho sairia à rua.

E saiu, sem Paulo Portas, mas com a candidata por Setúbal: nada mais nada menos do que a ministra das Finanças, o rosto que sucede ao austero Vítor Gaspar. Mas nem isso perturbou o passeio: Passos percorreu uma artéria comercial, que às 4h30 da tarde está deserta. É dia de trabalho, o Montijo é uma zona residencial com poucos serviços, e mesmo para aquelas compras antes do jantar é demasiado cedo.

Logo, o primeiro-ministro só vai encontrar pensionistas, desempregados, estudantes ou fãs e, claro, quem - ao ver a comitiva passar - os mande trabalhar. E foi isso mesmo que encontrou. Era o tal contacto com a população que os jornalistas tanto esperavam. Afinal, da campanha de 2011 para esta, a mudança é radical: Passos explicou que antes era candidato, na oposição, agora é primeiro-ministro; antes tinha de prometer o que ia fazer, agora anda ver o trabalho feito. Aliás, sublinha, "andei na rua durante os últimos quatro anos, em circunstâncias bem mais difíceis do que aquelas que vivemos agora". E por ser sorte, a passeata pelo centro do Montijo correu bem: pediram-lhe beijos e vitórias. E até houve elogios à figura: "só o conhecia das fotografias, mas é muito elegante, é uma brasa", disse-lhe uma senhora que o encontrou no café, onde o primeiro-ministro parou para um pouco da cafeína para continuar a rua abaixo. São só 500 metros, mas Passos para em lojas, talhos, cumprimenta quem por ali abranda o passo a olhar aquela cena.
  Bandeiras ao alto, barulho, muitos jornalistas, que não querem perder pitada deste momento tão raro e tão esperado - da última vez que Passos saiu das fábricas e dos jantares-comícios para a rua, os lesados do BES e os militantes da coligação PAF provocaram momentos de grande tensão: e isso foi já há mais de uma semana.

Mas o colorido de um arruada deve ter atraído estas crianças que seguiram todo o percurso sempre à espera de uma aberta na roda fechada que deixa Passos escondido, quando não se mede mais de palmo e meio.

Espreitavam e comentavam: "Não vamos conseguir ver o primeiro-ministro.
Não dá para passar".

  Já os graúdos, esses, conseguiam ver que era Passos Coelho ali no meio, rodeado de assessores, militantes, jornalistas, e, claro, seguranças que vão garantindo que o percurso é um passeio no parque. E foi. Mesmo que, em passagem, algumas pessoas gritassem insultos.

"Devias ter vergonha. Vai mas é arranjar empregos para os jovens que têm de emigrar para conseguir trabalhar", foi a primeira crítica audível no meio da festa; logo outra senhora, mais afoita, abriu a boca para insultar o primeiro-ministro e o Governo: "C****, espero que desapareças!"

A verdade é que o impacto dos improprérios não contam para o balanço final da tão esperada arruada do Portugal à Frente: até porque são transeuntes isolados, que mostram o seu descontentamento, e que não chegam ao núcleo onde Passos vai caminhando: nem tentam; até porque ao primeiro sinal de protesto, há logo um sonoro "Portugal, Portugal, Portugal, Portugal" - uma espécie de cântico para abafar o desagrado pelas políticas dos últimos quatro e até pela invasão da pacata cidade do Montijo, que parece estar em dia feriado.

"Olha, vai entrar no chinês, queres ver?" O comentário de uma rapariga que vai observando ao longe o percurso tem a réplica da amiga: "Se já foi ao talho, se foi à retrosaria, se foi ao café, também podia ir ao chinês, que mal é que tinha. A dona da loja fala português...". 


Até podia. Horas antes esteve na Raporal, uma empresa agro-alimentar, e falou da importância do mercado chinês nas exportações de alguns produtos portugueses. E Passos afirmou que será o próximo primeiro-ministro a "coroar" o trabalho que tem sido feito com a China.

Mas Passos não entrou no chinês, até porque pelo caminho encontrou um senhor que conhece o pai de Passos Coelho. Uma breve troca de palavras, mais um cumprimento, mais um beijinho.

Estava mesmo a terminar, perto do coreto, a arruada que vem provar à comunicação social que, afinal, Passos sai à rua e vai continuar a sair. À TVI garantem-nos que há arruadas previstas para os próximos dias, mesmo que a comunicação social só conheça de véspera o detalhe da agenda e por isso não possa antecipar os passos de Passos pelas ruas do país. Nem os jornalistas, nem os protestantes.

Ah, e o Miguel e o Diogo chegaram mesmo a falar com o primeiro-ministro. Veja o vídeo