O presidente do PSD comunicou, nesta terça-feira, ao Conselho Nacional que não se recandidatará ao cargo, justificando a saída com os resultados das autárquicas e por entender que será mais vantajoso para o partido ter uma nova liderança.

Se eu permanecesse vitorioso à frente do PSD, como líder do PSD, em vez de estar a construir uma alternativa de Governo, estaria em permanência a combater o preconceito e a ideia feita de que estava agarrado ao poder do partido e de que estava a resistir ceder o lugar a quem tem melhores ideias, melhores estratégias para levar o partido a melhor porto", justificou Pedro Passos Coelho, numa intervenção perante o Conselho Nacional, aberta à comunicação social.

Passos Coelho reiterou que não se demitirá na sequência de eleições locais e assegurou que "o partido não ficará em gestão".

"Disse que não me demitiria fosse qual fosse o resultado. Reafirmo o que disse, mas como não saio ileso deste resultado não posso deixar de tirar dele consequências para futuro". Torna-se "muitíssimo claro" que essa consequência "se exprime na decisão de não me apresentar a uma recandidatura dentro do PSD."

Lembrando que as autárquicas são eleições locais, e reconhecendo que o resultado "foi mau e foi pesado", Passos Coelho admitiu que este escrutínio "tem sempre uma leitura nacional e um significado nacional". Fez, por isso, questão de dizer que "esta é a decisão que faz sentido".

Na avaliação que faço das circunstâncias políticas na sequência desse resultado [autárquico], uma nova liderança por parte do PSD, bem como a estratégia que lhe estará associada, terá melhores possibilidades de progressão e de sucesso do que uma que eu pudesse encabeçar", explicou. "Muitas vezes não é preciso ir ao fundo do baú e refletir em todos os argumentos para termos a certeza, quase instantaneamente, da decisão que devemos tomar", considerou.

Passos Coelho salientou, contudo, que, se decidisse recandidatar-se, não lhe faltariam apoios e argumentos "para disputar uma eleição da qual poderia eventualmente sair vencedor".

"A minha obstinação não é com os lugares", disse, admitindo ser "muito obstinado com outras coisas".

"Ficar seria oferecer a caricatura de que estamos agarrados ao poder interno, explorando a gratidão dos militantes perante os militantes, a resistir em vez de construir", reiterou, classificando a sua decisão "como lúcida e não como resultado de uma conveniência ou um desejo".

Apesar de sair de cena, Passos Coelho disse que tal não significa que se "vá calar para sempre", mas também "não irá ficar a rondar" a futura liderança do PSD, seja ela qual for, prometendo lealdade a "quaisquer que sejam as pessoas" que lhe sucedam na liderança do partido.

O facto de não me recandidatar à liderança do PSD não significa que me vá calar para sempre, não deixarei de lutar pelo meu país da melhor maneira que souber", prometeu.

Passos Coelho garantiu que, "sejam quais forem os protagonistas desta nova fase do PSD", poderão contar com a sua lealdade e deixou uma palavra especial ao líder parlamentar, Hugo Soares, e ao eurodeputado social-democrata Paulo Rangel, ambos presentes na sala.

"Sei que o PSD é um grande partido aqui e é um grande partido na Europa. De um lado com o Hugo, do outro com o Paulo Rangel, aproveitaremos bem estes tempos para mostrar que o PSD é um pilar de estabilidade e construção do futuro", defendeu.

"Desejo sinceramente que o período que se vai agora abrir seja encarado como uma grande oportunidade", afirmou, garantindo que não irá ser "um obstáculo" nem envolver-se nessa discussão, cabendo à secretária-geral organizar o processo eleitoral.

Apesar de considerar que não tem condições para se recandidatar a um novo mandato à frente do PSD, Passos assegurou que não desistirá das ideias que sempre defendeu e que irá "apresentá-las pelo país" quando entender.

Mas não andarei a rondar nem a assombrar, desejo, do fundo do coração, o melhor para o meu país e para o meu partido", afirmou perante uma sala repleta de conselheiros nacionais.

Passos Coelho saudou "um Conselho Nacional tão concorrido", perante o qual confessou a sua surpresa com o resultado das autárquicas, que disse serem apenas comparáveis ao de umas autárquicas e 1982.

"O resultado pode, dois dias depois, não parecer tão pesado quanto se afigurou no domingo à noite, pode achar-se que tendo igualado o numero de votos de 2013 o resultado possa não ter sido tão mau quanto se pintou", sustentou.

Ainda assim, lamentou que "todos os riscos" que tinham sido identificados pela comissão coordenadora autárquica e pelos presidentes das distritais se tenham materializado, enquanto "só uma parte das oportunidades" se concretizou.

Considerando o resultado do PSD "mau e pesado", o líder do PSD referiu-se igualmente aos resultados do BE, do PCP e do CDS-PP.

"O BE não perdeu muito porque não tinha muito a perder. O PCP perdeu muito mas acha que há outras coisas que compensam essas perdas", disse.

Quanto ao antigo parceiro de coligação, considerou que o CDS "não terá tido um resultado tão ambicioso como se procurou pintar", embora elogiando o resultado obtido pela sua líder, Assunção Cristas, em Lisboa.

Não saio com qualquer ressentimento ou recriminação seja com quem for", salientou, dizendo que estes últimos anos foram "muito intensos" e por vezes "muito duros".

O ainda presidente do PSD admitiu que o calendário que estava definido para as eleições diretas e o congresso poderá ser demasiado longo, e propôs que a eleição do próximo líder seja já em dezembro e não no final de janeiro.

Na sequência da ideia avançada por Pedro Passos Coelho em antecipar o calendário previsto, o secretário-geral do PSD, José Matos Rosa, propôs esta terça-feira que o Conselho Nacional se volte a reunir na próxima segunda-feira para marcação das diretas e do Congresso do partido.

Fim de um ciclo de sete anos

Pedro Passos Coelho anunciou esta terça-feira que não se irá recandidatar a um novo mandato como presidente do PSD, partido a que preside há mais de sete anos, dos quais durante mais de quatro foi primeiro-ministro.

Passos Coelho foi, até hoje, o segundo presidente do PSD mais duradouro, logo atrás de Cavaco Silva, dez anos líder do partido, e à frente de Durão Barroso, que exerceu essas funções por cinco anos.

À frente do PSD desde 26 de março de 2010, e reeleito em 2012, 2014 e 2016, sem nunca ter tido oposição interna organizada, Passos Coelho exerceu o cargo de primeiro-ministro entre junho de 2011 e novembro de 2015, em dois Governos sucessivos em coligação com o CDS-PP, embora o segundo tenha durado menos de um mês, na sequência do ‘chumbo’ do programa do executivo no parlamento pela esquerda.

No primeiro executivo, o líder do PSD governou a maior parte do tempo sob assistência financeira externa, na sequência do pedido de resgate de 2011, ainda por um Governo socialista. Essa coligação voltou a ser a força mais votada nas eleições legislativas de 04 de outubro de 2015, com 38,5% dos votos, mas PSD e CDS-PP perderam a maioria absoluta na Assembleia da República, o que acabou por ditar o destino desse Governo minoritário.

Já na oposição, Passos Coelho foi reeleito líder do PSD em março de 2016, com 95% dos votos, novamente sem adversários, embora ao longo dos últimos dois anos tenham sido vários os críticos assumidos à estratégia da direção, nomeadamente o ex-presidente da Câmara Rui Rio que já era dado como certo na disputa da liderança antes das autárquicas.

Nos últimos dois anos, a relação do líder do PSD com o primeiro-ministro socialista, António Costa, foi sempre tensa, com Passos a atribuir os resultados económicos favoráveis do país em grande parte à herança que recebeu, e acusando o executivo de ter prosseguido a austeridade sem o assumir, através do aumento dos impostos indiretos, do travão no investimento e da degradação dos serviços públicos.

Também pouco próxima foi a relação com Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República desde março de 2016. Apesar de este ter contado com “uma recomendação de voto” do PSD na sua eleição, Passos referiu-se sempre ao chefe de Estado como o “dr. Rebelo de Sousa” e realçou, por diversas vezes, que o Presidente tem de ser uma figura independente dos partidos.

Na última campanha autárquica, o líder do PSD manifestou, por três vezes, o desejo de voltar a ser primeiro-ministro em 2019, mas os piores resultados de sempre em eleições locais levaram Passos Coelho, de 53 anos, a optar por se afastar da presidência do PSD.

Pedro Manuel Mamede Passos Coelho nasceu em Coimbra a 24 de julho de 1964, filho de um médico transmontano e de uma enfermeira do Baixo Alentejo, que se conheceram na Estância Sanatorial do Caramulo.

Do Caramulo, a família mudou-se para Angola, onde Passos Coelho viveu parte da infância, regressando a Portugal depois do 25 de Abril de 1974, para a terra dos avós paternos, Valnogueiras, no concelho de Vila Real.

Foi em Vila Real, regressado de África, que Passos Coelho se iniciou na política, primeiro participando num congresso da União dos Estudantes Comunistas (UEC), e depois aproximando-se da Juventude Social Democrata (JSD) por causa de um campeonato de cartas, aos 14 anos.

Após exercer os cargos de secretário-geral e vice-presidente da JSD, entre 1984 e 1990, foi presidente da organização de juventude do PSD em dois mandatos consecutivos, de 1990 a 1995, em pleno "cavaquismo".

Sem nunca ter exercido qualquer cargo governativo, esteve no Parlamento de 1991 a 1999, como deputado e vice-presidente do grupo parlamentar do PSD.

Depois de ter sido derrotado em 2008 por Manuela Ferreira Leite, foi eleito presidente do PSD nas diretas de 26 de março de 2010, que venceu com 61 por cento dos votos, derrotando Paulo Rangel, José Pedro Aguiar-Branco e Castanheira Barros.

Pelo meio, criou um grupo de reflexão política "Construir Ideias", e escreveu um livro, "Mudar", editado em janeiro de 2010 pela Quetzal.

Entre 1999 e 2008, esteve mais distante da vida política, com uma curta passagem pela direção social-democrata de Marques Mendes, da qual foi vice-presidente, saindo por divergências políticas que não foram tornadas públicas.

Em 2001, concluiu a licenciatura em economia pela Universidade Lusíada de Lisboa. Foi consultor da Tecnoforma e mais tarde ingressou no grupo Fomentinvest, que tem o ex-ministro da Administração Interna Ângelo Correia como presidente da comissão executiva. Passos Coelho deixou os cargos que exercia neste grupo depois de ser eleito presidente do PSD.

No entanto, a sua ligação a esta empresa e as polémicas relacionadas com as contribuições para a Segurança Social entre 1999 e 2004 viriam a persegui-lo no tempo em que foi primeiro-ministro.

Internamente, disputou por duas vezes, e perdeu, a distrital de Lisboa do partido, uma vez para Pacheco Pereira, a outra para Duarte Lima. E nas autárquicas de 1997 esteve perto de ganhar a presidência da Câmara Municipal da Amadora.

Casado pela segunda vez, pai de três filhas, Passos Coelho assume-se como um amante de música, tem voz de barítono e chegou a ter aulas com uma professora do Conservatório e até a inscrever-se num 'casting' para um musical de Filipe La Féria.

Na última campanha autárquica, Passos confessou, perante um grupo de crianças, que só não seguiu profissionalmente esse seu talento de cantor porque não o descobriu “mais cedo”.