Começou logo por avisar que a recandidatura à liderança do PSD “não é um ato desgarrado”, “isolado”, nem resulta de “nenhuma inércia”. Para Pedro Passos Coelho, é o mais natural querer terminar aquilo que, como o próprio diz, ficou a meio e os portugueses até deram oportunidade para continuar, mas António Costa não deixou.

Perante uma sala apinhada de apoiantes, num sinal de que o partido está com o ex-primeiro-ministro, arrancou os primeiros aplausos quando constatou que, “pela primeira vez em Portugal não só não governa quem ganhou as eleições como governa quem as perdeu”.

“Se no entanto não tenho nenhum inconformismo com essa circunstância não posso deixar de afirmar que a visão estratégica que tenho para Portugal não só ficou a meio da sua realização por circunstâncias particulares que no devido tempo os portugueses ajuizarão, como a necessidade da sua execução no nosso país se torna hoje ainda mais relevante e premente do que há meio ano atrás”

 

Passos Coelho admite que foi a cara da austeridade, diz que tem "plena consciência disso" e que não "dissimula" a importância daquilo que é "uma evidência".  Sabe que todo o processo "deixou feridas que ainda precisam de ser saradas".

 

"Fiz o que achei que era preciso para defender o futuro dos portugueses mesmo sabendo que isso me poderia custar uma reeleição. Admito que à força de não querer falhar possa ter levado mais longe do que seria necessário a imagem de determinação que ficou associada à fase de austeridade"

 

Só que as eleições legislativas de 4 de outubro foram, para o ex-primeiro-ministro, a prova de que se nem todos os portugueses lhe "perdoaram" a "dureza", muitos "redobraram" a confiança na sua determinação, porque juntamente com o CDS-PP o PSD ganhou as eleições. 

Daí que para Passos, a recandidatura seja apenas e só um "ato de coerência" e de "consistência política", contra a "quase fatalidade de retornar ciclicamente aos vícios do passado e as suas sequelas económicas e sociais". Esta tónica de colagem dos anteriores governos socialistas ao atual também marcou o seu discurso, para além da crítica à solução que Costa encontrou para que Passos e Portas não governassem. 

Aplausos ainda mais prolongados quando, a seguir, fez o 1+1 que pretende nesta candidatura: "Candidato-me à liderança do PSD e portanto sou naturalmente candidato a primeiro-ministro".

 

"Alguém se sente mal com este programa?"

 

Com o slogan "Social-democracia sempre", como já tinha anunciado no Facebook, Passos Coelho quer afastar as dúvidas que têm sido levantadas sobra a natureza social-democrata do partido. Por isso, citou o programa do PSD para subscrever e dizer ao que vem: "Alheio aos projetos de transformação radical da sociedade, através de planos de engenharia social emanados do estado e do poder político o PSD é antes um partido reformista".

E para dizer contra o que (ou quem) vem. Passos defende o gradualismo que não encontra no Governo de António Costa para "capacitar os portugueses a serem eles os plenos participantes e agentes dessas transformações". Vincando o carácter "moderado e reformista" do partido, "guiado pelo personalismo e pelo realismo", também sublinhou, lá está, que o PSD é "avesso e combatente dos radicalismos e dos socialismos de engenharia social". À imagem socialista implícita no seu discurso, contrapõe com o "valor de equilibrio e de segurança" que o PSD é para Portugal, no seu entender.

"Alguém se sente mal com este programa? alguem olhando para o nosso passado vê este programa ou esta oriientação aviltada ou desviada da nossa ação política? Eu não vejo"

Agora na oposição, o líder social-democrata expressou que recusa a política do "bota abaixo e quanto pior melhor". "Desejo sinceramente - e lutei muito para isso - que país conheça nos próximos anos tempos de prosperidade e de menos desigualdades".

Mas uma coisa é certa: não acredita, e di-lo com estas palavras, na política do Governo de Costa, com "riscos desnecessários, excessos de voluntarismo e até de revanchismo".

"Não precisamos que as coisas corram mal ao atual governo e aos portugueses. o que é dificil é ganhar as eleições, quando as noticias do lado da economia são más, mas já vim muitos politicos perderem eleições com a economia a correr bem. Acreditem, acreditem, se tudo na economia não correr pior, e desejo que não corra, ainda assim será necessário que a politica mude, para libertar potencial de crescimento e de abertura de Portugal"

Pedro Passos Coelho começa já amanhã uma volta ao país, para ouvir militantes e visitar associações e empresas. As diretas para a liderança do partido laranja estão agendadas para 5 de março e o Congresso vai realizar-se entre 1 e 3 de abril, em Espinho.