O primeiro-ministro alegou esta terça-feira que querem expor a sua vida fiscal, o que associou a desespero de certas áreas políticas, e afirmou que não é perfeito e está preparado para tudo.
 

«Eu quero dizer com muito à vontade a todas as senhoras deputadas e aos senhores deputados que eu estou pessoalmente e a minha família está pessoalmente preparada para neste ano de eleições enfrentar todo esse tipo de debate político».


Pedro Passos Coelho referiu que foi questionado pela comunicação social sobre a eventual entrega de declarações fora de prazo e, dirigindo-se a quem quer «remexer» na sua vida, disse que já se atrasou com certeza muitas vezes, mas que, quando o Estado lhe exigiu, sempre pagou o que devia, e nunca usou o cargo de primeiro-ministro em seu benefício.
 

«Pode ter a certeza que eu, muitas vezes na minha vida, ou me atrasei, ou entreguei na altura que o Estado me exigiu aquilo que me era exigido. Ninguém esperará que eu seja um cidadão perfeito. Mas nunca deixei de solver as minhas responsabilidades».


Passos Coelho considera que a questão dos impostos faz parte da sua « esfera privada» e foi muito aplaudido quando deixou implícito um comentário ao processo que envolver José Sócrates.
 

«E quem quiser invadir a minha esfera privada (...) não encontrará nunca, no cidadão Passos Coelho, ninguém que como primeiro-ministro usou o lugar que tinha para ocultar, disfarçar, esconder ou evitar qualquer tratamento exatamente igual ao que outro cidadão teria», nem «para enriquecer, para prestar favores ou para viver fora das suas possibilidades», nem que «tivesse nomeado alguém por favor ou que tivesse andado a traficar influências ou a pressionar senhores jornalistas para que certas notícias apareçam ou não apareçam».


Depois de se declarar «preparado» para tudo, Passos Coelho acrescentou: «Ainda ontem tive conhecimento de que há pelo menos jornalistas e um jornal que querem expor aspetos da minha vida fiscal, comuns de resto a muitos milhares de portugueses, apenas com o propósito de querer sugerir que somos todos iguais».

«Talvez agora se perceba um bocadinho melhor as notícias que têm vindo a público de processos que foram instaurados ao nível da administração tributária por gente que, fora daquilo que são as suas obrigações profissionais, pretendeu conhecer detalhes da minha carreira fiscal».


O primeiro-ministro dedicou a este tema mais de dez minutos, sendo por diversas vezes interrompido por aplausos dos deputados do PSD.

Sem voltar a falar nas dívidas acumuladas à Segurança Social entre 1999 e 2004 noticiadas pelo jornal «Público», Passos Coelho fez alusão ao assunto sustentando que, «à medida que os resultados aparecem, parece que um certo desespero se começa a instalar em certas áreas políticas». Sobre este tema, o PS exige ver respondidas várias perguntas.

«Parece que afinal as tão importantes sondagens não estão a revelar exatamente aquilo que se esperava e que afinal estas eleições podem não ser um passeio», considerando que isso está a fazer deslocar a discussão «do foco político para o foco pessoal».

«Preferia claramente que pudéssemos centrar a nossa discussão na política, mas quando os nossos adversários têm pouco para oferecer, julgo que alguma chicana política pode servir algum propósito. Espero que não vão por aí. Mas quero dizer que não será sob pressão nem sob ameaças dessa natureza que eu deixarei de fazer aquilo que o meu dever de consciência mandar».


Pedro Passos Coelho tinha reconhecido, esta segunda-feira, que estava convencido de que há 15 anos as contribuições para a Segurança Social dos trabalhadores independentes eram «de opção» e sublinhou que não teve qualquer intenção de não cumprir as suas obrigações contributivas

Já esta terça-feira, o jornal «Público» noticiou que o primeiro-ministro  não terá pago a totalidade da sua dívida à Segurança Social, mas apenas uma parte.
 

«Quando sair do lugar do primeiro-ministro, aconteça isso quando os portugueses entenderem que chegou a altura, eu voltarei à minha vida normal que não alterei ao longo de todos estes anos, pagando aquilo que devo aos bancos dos empréstimos que tenho, assim a vida mo ajude a fazer, a tratar da família, a viver com as mesmas posses, que não são muito diferentes - para não dizer que são menores - do que aquelas que tinha quando iniciei o meu mandato», concluiu.


O caso tem sido relatado na imprensa internacional, com destaque em vários jornais digitais.

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Além do PS, também o PCP formalizou esta terça-feira um conjunto de nove questões dirigidas ao primeiro-ministro sobre a sua situação perante a Segurança Social, pedindo-lhe que especifique as entidades que o remuneraram e sobre as quais incidiram os descontos em dívida

Sobre a intervenção desta terça-feira de Passos Coelho no encerramento das Jornadas Parlamentares do PSD, o líder parlamentar do PCP, João Oliveira, disse esperar que tudo fique «clarificado» antes do próximo debate quinzenal na Assembleia da República. 
 

 «Parte das afirmações não precisavam de ser feitas, já que os portugueses têm vindo a confirmar a apreciação e a avaliação que fazem deste primeiro-ministro e deste Governo. A outra parte das afirmações é incompreensível considerando as dúvidas que o próprio primeiro-ministro decidiu manter relativamente às suas opções pessoais no que respeita à Tecnoforma e ao CPC (Centro Português para a Cooperação)».


Já o Bloco de Esquerda entregou esta terça-feira um requerimento a solicitar o registo contributivo «do cidadão Pedro Passos Coelho» entre 1999 e 2004 e quer ter acesso a toda a documentação trocada com o Instituto da Segurança Social. 

Esta posição foi transmitida aos jornalistas pela deputada do Bloco de Esquerda Mariana Aiveca, numa declaração em que usou a ironia para comentar a atuação do primeiro-ministro no que concerne ao pagamento das suas contribuições à segurança social.
 

«Pedro Passos Coelho, na sua ingenuidade, até poderia desconhecer que tinha de descontar para a segurança social. Durante estes anos, como todos nós, ele fez o preenchimento da declaração de IRS - e se formos ao anexo B estão lá todas as despesas, incluindo as contribuições obrigatórias para a segurança social. Então, durante cinco anos consecutivos, passadas cinco declarações de IRS, o senhor primeiro-ministro nunca deu conta que havia lá um quadrozinho em que era obrigado a dizer quanto descontou para a segurança social? Isto é no mínimo caricato».