A tragédia de Pedrógão Grande foi o primeiro tema do debate do Estado da Nação, iniciado pelo primeiro-ministro. "Nunca mais nenhum de nós poderá esquecer aquele dia. Temos o dever de tudo fazer para estar à altura". António Costa disse que as linhas de baixa tensão e média tensão e os cabos de fibra já estão a funcionar e que as primeiras habitações estão a ser reconstruídas. O líder da oposição, Passos Coelho, não foi em conversas e acusou o Governo de tentar mascarar falhas graves.

Nestas semanas, é patente que o Governo não existiu para o que era mais importante. Mas isso não parece incomodar nem o Governo nem a sua maioria. (...) O Governo desfila pelo palco da tragédia de Pedrógão e passado um mês ainda nem sequer teve capacidade para apresentar em Bruxelas pedido de ajuda"

Isso mesmo foi confirmado ontem pela Comissão Europeia. "Não podemos acelerar o que não temos", constatou a comissária europeia para a Política Regional, referindo-se à formalização do pedido que tem de ser feita pelo Governo português. Serão 12,5 milhões de euros, no máximo, que Portugal poderá receber para a reconstrução das áreas afetadas pelos incêndios. 

Politicamente, e sobre esta tragédia, também o roubo de armamento em Tancos, e as demissões tardias dos secretários de Estado envolvidos na polémica das viagens da Galp, Passos Coelho teve como alvo tanto o Governo, como BE, PCP e Verdes, que o apoiam no Parlamento.

Bastou uma série de eventos imprevistos, alguns trágicos, outros simplesmente preocupantes e constrangedores, para que de repente o Governo maravilha, maioria estável, duradoura e coerente, acabassem a mostrar toda a sua insuficiência e sinal da sua desarticulação. A economia até pode estar a andar melhor, mas a responsabilidade política está a fracassar em grande estilo".

"Geringonça espera novos ventos para se esquecer o que aconteceu"

O líder do PSD constatou ainda que "é difícil não encontrar nesta sequência um padrão que se estende a muitos outros exemplos", como encerrar o inquérito parlamentar à Caixa Geral de Depósitos antes da decisão judicial que autorizaria o acesso aos documentos "fundamentais" para apurar factos.

Noutros países isto seria considerado grave. Infelizmente no nosso pais há quem encontre traços de genialidade ou habilidade política. [Sobre Pedrógão Grande e Tancos] há quem ainda tente ensaiar abordagens desdramatizadoras e manipuladoras. Isso é uma ofensa à inteligência das pessoas"

"Uma fraude democrática"

Passos não tem dúvida que, nos dois casos, o Estado falhou "clamorosamente". "A geringonça que se habituou a ventos favoráveis e boas notícias não encontrou caminho". Antes, também o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, foi mais longe ao dizer que o Governo está a "a colapsar", reclamando para o anterior Governo o mérito dos bons resultados económicos atuais. 

"A geringonça espera novos ventos que façam esquecer o que aconteceu, [mas] ficaram expostas as fragilidades, as contradições, o calculismo e o populismo latente. Precisamos coletivamente de mais qualquer coisa. O país precisa de liderança e objetivos mobilizadores. Ficar à espera de melhores ventos e sorte não chega", avisou.

Terminou dizendo que o país está perante uma "fraude democrática". É este o Estado da Nação para o PSD.

Costa volta a pressionar Parlamento

Costa não chegou a ter tempo regimental para responder, mas antes tinha colocado na Assembleia da República a faca e o queijo na mão para que a reforma da floresta avance (está desde abril em discussão no Parlamento). 

Sem prejuízo da informação e avaliação dos organismos públicos, o Governo dará toda a colaboração e apoio tanto ao inquérito crime do MP como à comissão técnica independente constituída pelo PSD Mas o que é essencial, o que é estrutural para evitar novas catástrofes, enfrentar desafio de revitalizar o interior e ordenar floresta. Se há respostas que ainda não temos, porque inquéritos ainda decorrem, soluções que o país há muito espera"

Apelou, nesse sentido, "mais uma vez, ao esforço conjunto para consensualizar reforma estrutural". Disse ainda que "a melhor forma de dizermos nunca mais é lançarmos nestes sete concelhos projeto piloto nas políticas de revitalização".

Prometeu também "apurar o que aconteceu, em função dos factos apurar responsabilidade, com um dever de total transparência perante os cidadãos".

O debate do Estado da Nação acabou como começou, com a tragédia. Foi o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, quem tomou a palavra em nome do Governo para o encerramento da discussão parlamentar, antes das férias. 

Sabemos muito bem o sobressalto por que todo o país passou. E lembra-nos a todos o muito que há a fazer em matéria de proteção das populações, desenvolvimento do território, melhoria dos serviços e coesão da sociedade. Esta consciência dá-nos, a todos, ainda mais energia, ainda mais determinação e ainda mais sentido de responsabilidade a favor de Portugal e a favor dos portugueses”