O primeiro-ministro afirmou esta terça-feira, em entrevista à SIC, que não espera fazer novos cortes nas pensões, mas deixou a ressalva que isso depende de uma negociação em que pretende envolver o PS na reforma da Segurança Social.

"Não estamos à espera disso [cortes nas pensões] e os 600 milhões que nós identificamos no programa de estabilidade não têm que ver necessariamente com cortes de pensões. Isso depende daquilo que for a negociação que nos queremos ter com o PS sobre essa matéria", afirmou Passos Coelho.

Afirmando que "as medidas de austeridade que estiveram em vigor estes anos" vão ser removidas "progressivamente", o primeiro-ministro reiterou ainda a tese de que Portugal tem "um problema com os sistemas previdenciais públicos, eles são deficitários", e de que é necessária uma reforma da Segurança Social que envolva o PS. E não quis "fechar os termos da reforma", em nome de um futuro acordo com os socialistas.

"Julgo que, depois de tantas instituições terem reconhecido esse problema, nós temos a obrigação, com o PS, de chegar a um entendimento sobre isso", afirmou, acrescentando que espera "sinceramente que o PS, já que o não quis fazer até às eleições, depois das eleições aceite fazer a reforma da Segurança Social".


Questionado se a reforma da Segurança Social que tem em mente passa pela introdução de plafonamentos, o primeiro-ministro não quis responder.

"Pode passar por várias coisas. Mas, uma vez que nós estamos firmemente disponíveis para poder ter um consenso alargado na sociedade portuguesa sobre essa reforma, até para ela poder ser duradoura, não quero estar a fechar os termos da reforma, prefiro falar dos seus princípios", argumentou.


"Porquê? Para que o PS não venha dizer: os senhores ainda não acertaram nada connosco e já estão a dizer como é que vão fazer a reforma. Portanto, eu gostaria de deixar isto em aberto, sendo certo que é um problema que temos e que precisamos de resolver", justificou Passos Coelho.

Houve ainda tempo para falar sobre os programas eleitorais dos partidos. Passos garantiu que o PSD não sentiu necessidade de apresentar um programa "à pressa"

"Não tivemos nenhuma necessidade particular de apresentar à pressa o programa eleitoral, o PS evidentemente já apresentou vários documentos. Portanto acho muito natural e compreensível que o líder do PS tenha sentido necessidade de dizer ao que vinha, distinguindo-se do seu antecessor por um lado e por outro lado marcando uma diferença para aquilo que tem sido a estratégia do Governo", afirmou, lembrando que "a estratégia do Governo é conhecida" e que o Programa de Estabilidade apresentado a Bruxelas "tem um horizonte até 2019". 


E esclareceu que as "linhas de intervenção que o PS defende" são uma "estratégia  arriscada e que já provou no passado ser uma estratégia que conduz o país a desequilíbrio externo".

"Parece-me uma escolha arriscada. Porque dizer aos trabalhadores que vão descontar menos para a Segurança Social por contrapartida de pensões mais baixa que vão ter no futuro, para poder ter mais dinheiro para gastar hoje, porque o que é importante para criar emprego é fazer a economia crescer, é pôr as pessoas a gastar mais dinheiro, essa é uma estratégia que eu considero arriscada e sobretudo que já provou no passado ser uma estratégia que conduz o país a desequilíbrio externo", reiterou Passos.


Legislativas: "Quem ganhar deve procurar ganhar com uma maioria absoluta"

O presidente do PSD defendeu que as legislativas devem resultar num "ganhador inequívoco" com maioria absoluta para governar, seja a maioria PSD/CDS-PP ou o PS, e remeteu uma decisão sobre candidaturas presidenciais para depois dessas eleições.

"Eu dei tudo o que podia para oferecer aos portugueses uma solução política de estabilidade. Julgo que quem ganhar as eleições deve procurar ganhá-las com uma maioria absoluta, seja a coligação que eu lidero, seja o PS. É preferível que haja um ganhador inequívoco nas eleições, para que o país possa ter um Governo com estabilidade para governar", afirmou Pedro Passos Coelho.


Interrogado sobre as candidaturas às eleições presidenciais, o presidente do PSD reiterou que só falará do assunto depois das legislativas, acrescentando: "Independentemente de todos os factos, nós não iremos fazer nenhuma escolha daqui até lá, e eu não irei perder um segundo a falar sobre eleições presidenciais daqui até às eleições legislativas".
 

Portugal aceitou “dar à Grécia condições que não” tinha


Sobre a Grécia, Pedro Passos Coelho afirmou que acredita que a saída do país do euro está afastada e explicou como se chegou a um acordo de princípio entre os credores e o governo grego.

“Sinceramente, eu espero que sim. O programa ainda não está fechado, o que há é um acordo de princípio que foi estabelecido entre todos os países da zona euro e a Grécia. O primeiro-ministro grego comprometeu-se junto do parlamento grego e do seu governo em aceitar aquele compromisso. Sabemos que há dificuldades políticas na Grécia, mas confio que o compromisso que o primeiro-ministro grego assumiu perante todos nós será cumprido. E o mesmo se aplica aos outros chefes de governo”, afirmou Passos Coelho.


Alertando que tem de haver realismo para “reconhecer os problemas”, o primeiro-ministro lembrou que a Grécia foi “o primeiro país da zona euro que precisou de um programa de assistência económica e financeira” e que a sua saída da “zona euro seria sempre um facto de consequências pouco previsíveis”.

“A Grécia já teve dois programas, já teve uma reestruturação de divida, teve durante todo esse período condições que nenhum outro país teve para facilitar o cumprimento das metas que estavam inseridas nesses programas. A situação não é simples e agravou-se nos últimos meses”, disse Passos, lembrando que “em 2012” Portugal aceitou “dar à Grécia condições que não” tinha.


O primeiro-ministro português defendeu ainda que, se não houvesse acordo, a saída temporária da Grécia do euro era inevitável e considerou que esse cenário até poderia ser do interesse do Governo grego.

Alegando que o Eurogrupo esteve sempre unido em relação à Grécia e que o Governo do Syriza não foi ameaçado pela Alemanha, Pedro Passos Coelho garantiu que "a  posição da Alemanha não era uma posição de ameaça à Grécia".

"A posição da Alemanha não era uma posição de ameaça à Grécia, era uma questão de discutir todas as possibilidades com o Governo grego. O Governo grego poderia ter interesse, durante algum tempo, em colocar-se fora das regras do euro para poder aplicar uma política económica diferente que as regras do euro não consentem. Se não tivesse havido um acordo, nós teríamos de preparar um cenário desse tipo", sustentou.