Cerca de 40 mil militantes socialistas vão eleger na sexta-feira e no sábado o secretário-geral do PS, com o líder António Costa a enfrentar desta vez a candidatura alternativa do ex-dirigente Daniel Adrião.

Nesta disputa interna, porém, não está em causa qualquer divergência em termos de orientação face à linha política seguida por um Governo socialista apoiado no parlamento pelo Bloco de Esquerda, PCP e "os Verdes", nem Daniel Adrião pretende contestar a liderança de António Costa.

Daniel Adrião, que entre os finais da década de 80 e o início dos anos 90 se candidatou por duas vezes à liderança da JS, afirma que o seu objetivo é levar ao congresso uma moção de orientação global crítica do funcionamento "aparelhista" do seu partido e frisa que só concorre à liderança do PS porque os estatutos partidários assim impõem.

Além das eleições diretas para o cargo de secretário-geral do PS, que são limitadas aos 39.862 militantes socialistas com as quotas em dia - uma norma que poderá cair em breve por proposta da atual direção -, também na sexta-feira e no sábado serão escolhidos 1.764 delegados ao Congresso Nacional deste partido, que se realiza entre 3 e 5 de junho na Feira Internacional de Lisboa.

Em simultâneo com as diretas para o líder e para eleição de delegados ao congresso, parte das mulheres filiadas no PS poderá ainda participar na eleição da única candidata à presidência do Departamento das Mulheres Socialistas, a deputada e ex-secretária de Estado Elza Pais.

Segundo dados disponibilizados à agência Lusa pelo presidente da Comissão Organizadora do Congresso (COC) do PS, Francisco César, entre a tarde e a noite de sexta-feira vão votar as secções da maioria das federações e das duas regiões autónomas: Açores, Algarve, Aveiro, Baixo Alentejo, Bragança, Castelo Branco, Évora, FAUL (Lisboa), Oeste, Guarda, Leiria, Madeira, Portalegre, Setúbal, Viana do Castelo e Vila Real.

No sábado, votará a maior federação socialista do país em número de militantes, a do Porto, bem como Viseu, Santarém, Braga, Coimbra, Europa e Fora da Europa.

Nas últimas eleições diretas, realizadas em novembro de 2014 António Costa concorreu sem qualquer oposição ao cargo de líder do PS, tendo então sido eleito pela primeira vez secretário-geral com 22700 votos, 96% do total de votantes.

Nessa eleição, tinham capacidade eleitoral (ou seja, quotas pagas) 47.727 militantes socialistas, quase mais oito mil militantes do que atualmente.

Na moção de estratégia que apresenta na sua recandidatura ao cargo de secretário-geral, intitulada "Cumprir a alternativa, consolidar a esperança", António Costa afasta a médio prazo qualquer acordo de "Bloco Central" com o PSD, defende a tese de que "o centrão político" abre espaço aos populismos e coloca como objetivos eleitorais repetir os triunfos nos Açores e vencer mais câmaras e mais freguesias nas próximas eleições autárquicas em outubro de 2017.

Já a moção de Daniel Adrião, intitulada "Resgatar a Democracia", coloca como pontos centrais a reforma do sistema político, com a introdução de círculos uninominais, e uma profunda revisão dos estatutos dos socialistas, designadamente através da generalização de atos eleitorais abertos a simpatizantes, incluindo aqui os processos de escolha de deputados e de candidatos a presidentes de câmaras.

Em relação a estas eleições internas, aliás, Daniel Adrião tem criticado a circunstância de apenas serem limitadas a militantes, apesar de os estatutos do PS admitirem a sua abertura a simpatizantes.

Nas suas intervenções políticas, o ex-dirigente do PS, natural de Alcobaça, insurge-se com frequência contra a atuação "pouco transparente" das "cúpulas" partidárias aos níveis nacional e distrital.

O estilo de funcionamento da máquina partidária, segundo Adrião, estará na origem de vários casos internos no PS que se transformaram depois em casos de polícia e de justiça, nomeadamente em secções da federação do Porto, ou nas distritais de Braga e Coimbra.