O ex-ministro socialista João Cravinho defende que a investigação Papéis do Panamá é um verdadeiro "tsunami político". Esta segunda-feira, no “Jornal das 8”, da TVI, o antigo ministro socialista afirmou que, se a descoberta for verdade, a União Europeia tem de mudar a diretiva comunitária sobre as empresas offshore.

Para João Cravinho, a diretiva comunitária que foi julgada um “tiro de canhão” contra as offshores, tem “três pequenos defeitos”. O primeiro é que logo de início, há duas exceções, que são a Áustria e o Luxemburgo, que tiveram tratamento especial, o que significa que a União Europeia nem sequer pode convencer membros seus a cumprir a diretiva geral. O segundo é que apenas os juros são objeto de reporte, mas não os dividendos. Em terceiro lugar, há a “monstruosidade das monstruosidades”: a diretiva da União Europeia é clara a dizer que só se aplica a indivíduos e não a empresas-fantasma que escondam os indíduos.

“É uma coisa tão perturbadora como isto: faz-se uma diretiva para moralizar, para acabar com as offshores, e uma das disposições da diretiva é dizer: ‘bom, se você tiver a conta em seu nome, eu alcanço-o’, mas ‘você se tiver a conta numa empresa-fantasma (…) então você esteja descansado’. A própria lei abre o caminho à fuga”, afirmou João Cravinho.

João Cravinho, autor do pacote anticorrupção, apresentado em 2006 e chumbado pelo próprio PS, que se manteve sempre como uma voz ativa no combate à corrupção, diz agora que a revelação dos Papéis do Panamá é um acontecimento revolucionário.

“É um tsunami. Porque, a partir daqui, não é possível ficar tudo na mesma. Não é possível. A opinião pública não pode tolerar isso”, defendeu.

João Cravinho quer acreditar que com a revelação dos Papéis do Panamá estamos a caminhar para o fim dos paraísos fiscais. O antigo ministro diz que agora os governos não podem ficar indiferentes, tendo mesmo de fazer alguma coisa.

“O que se está a revelar é de tal maneira indigno que, de facto, não estou a ver como é que amanhã os tais políticos que têm feito toda a legislação que permite que isto tudo seja legal, continuem a defender este regime e a dizer ao mesmo tempo que combatem a corrupção, o branqueamento de capitais, a fuga ao fisco e o diabo a quatro”, rematou.