Até ao fim Marcelo marcou a diferença pela campanha sui generis, mas também sentiu necessidade de marcar a diferença em relação à classe política a que pertence. O povo até pode gostar dele, mas está desconfiado. Já ele, confia que o dossiê mais urgente que pode cair-lhe em mãos, o Orçamento do, seja viabilizado no Parlamento. À esquerda, o mais óbvio. Mas à direita deixa o mesmo apelo.  
 
Crise orçamental em cima da crise política é um cenário proibido para o professor. “O mais natural é que seja na base dos acordos parlamentares” que o documento que gere as contas públicas tenha luz verde. E se não tiver?
 

“Se não for possível, espero que haja uma predisposição da oposição no todo ou em parte"  

 
Governabilidade acima de tudo. Para que haja estabilidade, defende Marcelo. A nível político, primeiro, para um contágio positivo na coesão social.
 
Nas ruas é que se vê como está o temperamento no povo. Então no norte, onde não há papas na língua e o coração tem voz. No mercado de Viana do Castelo, há quem goste dele, sim, nem que seja da ‘televison’ – assim com o sotaque nortenho -, mas lá que desconfia, desconfia.
 
Se já no Porto teve a primeira abordagem em que o colocaram no mesmo saco dos outros políticos, ali não foi muito diferente.
 
"Sr. Rebelo, sr. Rebelo, quero fazer-lhe uma proposta. Dê-me uma nota de 500€ que voto em si. Tem de fazer como o governo, vai-me desculpar. São todos uns trafulhas. Se não tiver a nota pode ser uma reforma vitalícia.Tirem a esses gatunos as subvenções, deem aos pobres". Mal chegou, Marcelo ouviu a mulher de 58 anos falar e esbracejar, a alto e bom som.
 

"Eu gosto muito de si e de o ver na televisão. Mas vai para lá, vai virar como eles…Eles viram todos. Eles vão para o poleiro e viram todos. E eu estou a ser como eles: estou-lhe a pedir 500 euros. Você não vire!”

"Não viro, não viro, não viro”. “Com a minha idade já não dá para virar”.


A mulher ouviu e a conversa acabou em bem. Se ficou convencida? Quer ver para crer e, para que fique registado, deixa a ameaça: "Se virar, vai apanhar-me na tribuna do Parlamento. Não me faça como aquele Cavaco. É um mono”. Ele retorquiu não comentando, mas virando a questão para si: “Mas acha que eu tenho cara de mono?”. Ela nem ouviu e repetiu a expressão para a ainda primeira dama. Depois Marcelo lá recebeu o “não” que queria ouvir. E assunto arrumado.

Continuava de banca em banca. Comprou bróculos – “porque faz bem à saúde e é anticancerígeno” – cenouras (mas nada de conotações coloridas), chouriços e flores.

No final do mercado, o galo esperava-o de sentinela. Ou não o viu, ou quis escapar de fininho. Mas o bicho até baixou a crista e tudo.

 
Marcelo, ou senhor Martelo, como ali também se ouviu, foi martelar para outras paragens. Almoçou em pé numa pastelaria de Barcelos, essa sim, a terra do galo. Passou por uma fábrica em Famalicão. Em Guimarães foi esmagado de beijos ao cair da tarde. Houve enchente e a multidão começou a juntar-se meia hora antes de ele chegar. Na praça onde mais uma vez estava a sede de Sampaio da Nóvoa e onde se ouviu o hino de Edgar Silva.

Ameaçou chover, mas o céu lá se aguentou. Como ele. A horas do fim da campanha, antes do encerramento "intimista" em Celorico, ainda há Braga. Ai, o seu Braga. Marcelo, o árbitro, está na terra onde gosta de ver jogar à bola. 

Leia também o balanço da campanha: 

Política dá canto, afetos dão penálti