Constança Cunha e Sá analisou a situação da detenção de Ricardo Salgado no seu comentário desta quinta-feira. A comentadora receia que o BES não está «descolado» do GES e que as consequências deste caso ainda podem recair sobre os portugueses.

Depois de Ricardo Salgado já ter sido ouvido pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DCIAP) sobre o caso Monte Branco e saído livre de qualquer suspeita, causa à comentadora «alguma perplexidade» que tenha sido detido para que não destrua papéis.

«Poderá ter havido novos desenvolvimentos» e a que podem não ser alheios os últimos desenvolvimentos no caso BES.

«A justiça portuguesa tem esta característica desagradável que é atuar sobre os poderosos quando os poderosos deixam de ser poderosos».

«Coincidência ou não, depois de Ricardo Salgado abandonar a presidência do BES, é a altura que a justiça escolhe para o prender».

« A justiça convive facilmente com as irregularidades dos poderosos e vai arrastando as coisas e as investigações vão-se prolongando e, quando eles deixam de o ser, ataca para cima deles nem sempre com consequências muitos vistas. No caso de Vale e Azevedo sim, no caso BPN ainda estamos para ver».

«É um teste para a justiça portuguesa, mas a justiça portuguesa já falhou todos os testes. As multas de Jardim Gonçalves que tinham prescrito.

«Uma justiça para poderosos e uma justiça para pobres e, no caso do BCP, ficámos também a saber que há uma justiça para banqueiros», ironiza a comentadora.

«Há quem diga que o MP escolheu este timing por causa da situação no Espírito Santo». A justiça portuguesa atua quando começou a atuar também a justiça noutros países, como nos Estados Unidos, na Suíça ou no Luxemburgo. Constança Cunha e Sá recorda que «as autoridades norte-americanas não têm a mesma complacência com o crime económico», pelo que «a justiça portuguesa não podia ficar de fora».

Em conclusão, a comentadora reconhece que «tem havido uma inoperância da justiça portuguesa

Por outro lado, «estamos a assistir ao colapso do Grupo Espírito Santo. Há uma parte do grupo que está em processo de falência e o banco que está muito bem». Ora , «é difícil traçar-se este muro, esta fronteira entre o grupo e o banco. Não sabemos qual é a exposição do banco», disse, pelo que «acha impossível fazer essa separação do GES por um lado e do BES por outro», aguardando pela apresentação do relatório de contas do BES adiada para 30 de Julho, porque «não se percebe muito bem qual é a situação do BES».

Tal como a comentadora «nunca percebeu as palavras de Passos Coelho quando disse que não ia haver uma intervenção do Estado no BES. Podemos usar o preciosismo de dizer que [ o fundo] não é dinheiro dos contribuintes, mas é dinheiro que nos foi emprestado pela troika. Ou seja, indiretamente, «ao usá-lo, está-se a aumentar a dívida». E, «obviamente, são os portugueses que pagam e bem, como se viu agora na execução orçamental».

Por isso, «não se pode excluir uma intervenção do Estado» e destacou as palavras mais contidas da ministra das Finanças do que as de Passos Coelho sobre este assunto.

No fundo, sbriu-se uma «caixa de Pandora», porque «Ricardo Salgado não agiu sozinho e basta olhar para o caso Monte Branco».

«Como é que há esta impunidade este tempo todo?», o que mostra uma «promiscuidade muito grande entre política e economia».

Esta e outras conclusões da análise de Constança Cunha e Sá para ouvir na íntegra.