No dia em que o vice-primeiro-ministro e a ministra das Finanças iniciaram um périplo pelas instituições da troika, Constança Cunha e Sá afirmou não entender muito bem que objetivo tem a viagem de Paulo Portas e de Maria Luís Albuquerque. Na TVI24, a comentadora recordou as posições extremadas que os dois governantes tinham há apenas dois meses em relação ao caminho a ser seguido pelo Governo, e que levaram mesmo Paulo Portas a apresentar a demissão. Constança Cunha e Sá sublinhou ainda o «secretismo» que envolve os processos de avaliação da troika, que nunca deixam perceber se há ou não uma negociação séria com o Executivo português.

No regresso ao espaço de análise nas «Notícias às 21:00» depois das férias, a comentadora começou por defender que a primeira pergunta que se deve colocar é: «Qual é a política, a estratégia do Governo? Quer promover o emprego, o crescimento? Ou quer continuar com uma política de austeridade, como sugere o corte de 4700 milhões de euros que ainda estamos à espera que se concretize?».

Sublinhando que aquelas duas posições são «incompatíveis», a comentadora «gostava de saber se Maria Luís Albuquerque já se converteu às teses de crescimento de Paulo Portas ou se foi o contrário».

«Porque quando eu fui de férias as posições eram extremadas. (...) Como eu não vi nenhum deles recuar em relação a ponto nenhum (...) não consigo perceber como é que esta trindade de repente se vai dar tão bem em relação a divergências profundas que existiam no seio da coligação». E mais: «O que é que o Governo vai propor à troika? Que tipo de negociações é que vamos ter agora na 8ª e na 9ª avaliação?».

Para Constança Cunha e Sá, o facto de os processos de avaliação da troika serem sempre feitos num «grande segredo» deixa por esclarecer se o Governo é o «4º elemento da troika», se há uma negociação séria.

«Nós vimos este Verão que os dados que foram pedidos parcialmente pelo FMI ou que foram enviados parcialmente pelo Governo, a verdade é que não refletiam a quebra de salários que existia em Portugal. Portanto dá a ideia que há umas ligações obscuras e promíscuas entre a troika e o Governo português, e que o Governo se serve da troika e que a troika se serve do Governo. E tudo isto um pouco nas costas dos portugueses porque nunca se percebe muito bem quais são as negociações. E dá-me a ideia, temo, que esta não vá ser exceção», referiu.

«O simples facto de o resultado das negociações ser apresentado só a seguir às eleições [autárquicas] mostra que, de facto, não vem aí nada de bom e que o Governo não está em condições de explicar o que é que, no fundo, pretende do país. Ora, sem isso, não vale a pena andar depois em guerras soltas com o Tribunal Constitucional. Porque essas guerras, que depois o Governo inventa, são no fundo uma consequência da falta de rumo, da falta de estratégia, da falta de política que o Governo tem. E é uma forma de disfarçar o fracasso das políticas do Governo», defendeu.