A TVI divulgou, esta sexta-feira, no «Jornal das 8», em exclusivo, a resposta de José Sócrates a seis perguntas que lhe foram colocadas sobre o processo que o levou à prisão preventiva, após ter sido detido para interrogatório a 21 de novembro. Pode ler na íntegra as respostas do ex-primeiro-ministro. Aqui fica o resumo da defesa de Sócrates em dez frases em que tenta demonstrar a sua inocência.
 

1. «Apesar da minha insistência, nunca, em nenhum momento, nem a acusação nem o juiz foram capazes de me dizer quando e como é que fui corrompido».

José Sócrates revela, em exclusivo à TVI, que não foi confrontado, durante o interrogatório do juiz Carlos Alexandre, com factos concretos relativos aos três crimes que está indiciado: corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco agravada. Detido no Aeroporto de Lisboa à chegada de Paris, José Sócrates foi interrogado durante três dias pelo juiz Carlos Alexandre, do Tribunal Central de Investigação Criminal, tendo-lhe sido decretada prisão preventiva.

 

2. «A corrupção em nome da qual me sujeitaram à infâmia desta prisão preventiva é uma pura invenção, uma "hipótese de trabalho" teórica da investigação, um crime presumido».

O ex-primeiro-ministro assume-se inocente relativamente a todos os crimes de que é indiciado, acusando o Ministério Público de inventar os pressupostos dos crimes.

 

3. «No caso de João Perna, tratou-se, patentemente, de utilizar a prisão para aterrorizar uma pessoa que julgavam vulnerável de modo a tentar obter sabe-se lá que informação».

Sócrates acusa a Justiça de ter injustamente detido o seu motorista como forma de obter deste informações para servirem à acusação. Depois de preso preventivamente, recorde-se que João Perna está em casa desde a véspera do Natal, com pulseira eletrónica, após ter sido ouvido, a seu pedido, pelo Ministério Público.

 

4. «Confirmo, sem qualquer problema, que face a algumas dificuldades de liquidez que atravessei em certos momentos, sobretudo desde que tive parte da minha família em Paris e eu próprio vivi entre Lisboa e aquela cidade, recorri várias vezes a empréstimos que o meu amigo Carlos Santos Silva me concedeu para pagar despesas diversas».

José Sócrates assume que teve de enfrentar dificuldades financeiras que foram resolvidas com empréstimos do amigo Carlos Santos Silva. E assume que este várias vezes lhe emprestou dinheiro. De acordo com o que tem sido publicado na comunicação social, Carlos Santos Silva seria o testa de ferro de Sócrates, tendo em seu nome entre cerca de 20 milhões de euros que seriam comissões por contratos milionários obtidos durante o tempo em que o seu amigo era primeiro-ministro.

 

5. «A afirmação de que o dinheiro dele é meu é simplesmente absurda e não tem qualquer fundamento».

José Sócrates considera esta tese absurda e, aliás, uma «invenção» que está na base da acusação de que se diz vítima.

 

6. «Nunca o meu motorista foi a Paris; nunca me levou nenhuma mala de dinheiro; e nunca o meu carro foi além de Espanha (onde fui passar curtos períodos de férias e pouco mais)».

Foi publicado na imprensa que o motorista de Sócrates foi várias vezes a Paris para lhe fazer chegar avultadas quantias de dinheiro que eram transportadas em malas.

 

7. «Durante a minha permanência em Paris, entre outras soluções em apartamentos que aluguei e em aparthoteis em que fiquei, houve um período de apenas 10 meses em que, a convite do meu amigo Engº Carlos Santos Silva, residi num apartamento que ele ali comprou como investimento imobiliário».

Segundo o que a imprensa publicou, José Sócrates seria o dono de um apartamento comprado por mais de dois milhões de euros, numa zona rica da capital francesa. O imóvel, no entanto, estaria em nome do amigo Carlos Santos Silva, que seria o testa de ferro para os negócios do ex-PM. Sócrates assume que chegou a viver no referido apartamento, mas apenas por empréstimo, durante um tempo limitado.

 

8. «Do dinheiro da venda, a minha mãe, como é seu direito e é normal entre pais e filhos, fez-me doação dos 75% que podia dar-me em vida (sendo eu filho único, depois do falecimento dos meus dois irmãos)».

As casas que a mãe de José Sócrates vendeu, como por exemplo, o apartamento no edifício de luxo Heron Castilho, em Lisboa, foram adquiridas pelo amigo Carlos Santos Silva. Seriam vendas de fachada, conforme a acusação do Ministério Público, em referências várias publicadas na imprensa. Sócrates vem aqui assumir que estas vendas foram uma forma do amigo Carlos Santos Silva o ajudar face às dificuldades financeiras por que passava.

 

9. «Carlos e Rui fazem negócios; Carlos e Rui são amigos de José; logo, José está envolvido nos negócios».

José Sócrates foi acusado de ter tido negócios na área do futebol com Rui Pedro Soares, presidente da SAD do Belenenses, ex-administrador da Portugal Telecom, alegadamente envolvido em escutas dos processos «Face Oculta» e «TagusPark». Ministério Público suspeita que Carlos Santos Silva tenha usado dinheiro de José Sócrates para investir no negócio de direitos televisivos da liga espanhola. Rui Pedro Soares já confirmou a existência de negócios com Carlos Santos Ferreira, nomeadamente o financiamento de dois milhões de euros à Worldcom com vista à aquisição dos direitos televisivos referidos.

 

10. «Mas já disse e mantenho: este processo, pela sua natureza, tem contornos políticos. E digo mais: este processo é, na sua essência, político».

Não havendo, segundo Sócrates, matéria criminal, resta concluir que se trata de um processo político. Já vários o disseram. O primeiro foi o próprio Mário Soares, que já visitou Sócrates por duas vezes no Estabelecimento Prisional de Évora, onde se encontra detido.