Podia escrever-se como um telegrama: direita não, esquerda sim. É neste pé que está o apoio ao esboço do Orçamento do Estado para 2016, que o ministro Mário Centeno levou esta quarta-feira à mesa, numa reunião com os partidos. Com alguns avisos a reter por parte das forças que apoiam o Governo. Menos telegráficos, mas a mensagem é esta: o BE exige transparência e lembra que a austeridade é parte do passado; o PCP não dá carta branca e remete o sentido de voto para depois.

 “Tranquilo” é como o Bloco de Esquerda se expressa quanto às negociações entre o Executivo de Costa e a Comissão Europeia. Outro adjetivo para o pós-discussão: os bloquistas estão seguros de que a recuperação dos rendimentos dos portugueses não será “beliscada”. 45 minutos foi o tempo que durou a reunião entre o ministro Mário Centeno e Pedro Filipe Soares, com o líder parlamentar do Bloco a vincar, à saída, que a promessa de virar a página é para cumprir.

“A austeridade é parte do passado” e “compete ao Governo ter toda a clareza e transparência no envio da informação às pessoas” sobre as medidas adicionais.

O PCP, ainda antes da reunião e logo a partir de Estrasburgo, fez-se ouvir pela voz do eurodeputado João Ferreira, que convidou o presidente da Comissão Europeia a acalmar “os seus burocratas”.

Por Lisboa, depois de ouvir Centeno, o líder parlamentar comunista João Oliveira também lamentou a “chantagem e pressão” exercida pelo Executivo comunitário. Mantendo o compromisso para com a governação socialista, o PCP quis, no entanto, deixar claro que não passa cheques em branco. O sentido de voto do Orçamento é para decidir depois, em “momento oportuno”.

Já Os Verdes reiteraram “apoio incondicional” ao Governo desde que o acordo de incidência parlamentar seja cumprido. O PAN, por sua vez, congratulou-se pelo facto de o ministro das Finanças ter confirmado medidas extraordinárias sobre o setor automóvel e a banca.

 

Direita pouco surpreendida com 'desatino'

PSD e CDS-PP, como era de esperar, condenaram o esboço do Orçamento do Estado para 2016. “Ato falhado” foi a classificação feita pelos sociais-democratas, acompanhada de ironia: "Ficámos só a saber que às revisões anteriores se vão suceder novas revisões. Até onde, nem o Governo sabe".

António Leitão Amaro não se mostrou muito surpreendido pelo modus operandi do Executivo socialista: "Não é a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira que o PS, mesmo no Governo, muda as previsões de crescimento, de défice, de saldo estrutural".

O PSD recordou que não são só os sociais-democratas a ter “dúvidas e reticências” sobre as previsões do Governo, dando como exemplo o Conselho de Finanças Públicas, a UTAO e a comunidade internacional. Seja como for, o partido assume que não vai “dificultar a posição nacional” e espera que o Governo “consiga fechar” as negociações. Mas para isso, precisará de “corrigir” a estratégia orçamental e apresentar um Orçamento “credível”. Como está, “é irrealista e imprudente – e não apenas nos números e nas estimativas, é nas escolhas".

O CDS-PP, perante o que viu, avança desde já com o sentido de voto negativo no Orçamento final que ainda está para vir. "Não há dúvidas quanto a essa matéria porque este não é o nosso caminho”. Nuno Magalhães saiu da reunião sem que Centeno tenha “especificado” valores ou detalhado eventuais aumentos de impostos.

Sexta-feira será um dia decisivo: Bruxelas dirá se as explicações da equipa de António Costa foram suficientes e as negociações chegaram a bom porto. A última garantia do Governo é que está tudo "bem encaminhado".