O Partido Socialista está de luto pela morte do seu presidente honorário, António de Almeida Santos. No partido, que tem esta terça-feira as bandeiras a meia-haste, elevam-se as vozes que recordam e lamentam a morte do histórico socialista.

Desde logo, o antigo ministro António Arnaut que lamentou a morte do seu amigo, que considerou “um republicano e um socialista exemplar”.

António Arnaut, principal impulsionador do Serviço Nacional de Saúde (SNS), recordou à agência Lusa que conheceu pessoalmente Almeida Santos após o 25 de Abril de 1974, passando a admirar “as suas qualidades intelectuais e a sua capacidade de trabalho”.

Arnaut, um dos fundadores e militante número 4 do PS, exercia então advocacia em Coimbra, em cuja universidade tinha concluído a licenciatura em Direito, em 1950.

Nessa época, além da atividade de oposição à ditadura de Salazar, no âmbito do Movimento de Unidade Democrática (MUD) Juvenil, Almeida Santos residiu na Real República Baco e destacou-se como dirigente da Associação Académica de Coimbra, além de ter integrado a Tuna Académica e o Orfeon Académico.

“Ele tinha deixado aqui uma marca de estudante rebelde que sempre se bateu pela causa da liberdade”, salientou.


António Arnaut consolidou a sua amizade com Almeida Santos sobretudo na vigência do I e do II Governo Constitucional, chefiados por Mário Soares.


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“Sempre fui muito íntimo do Almeida Santos, que era também um escritor que dominava a língua portuguesa”, sublinhou.


Na passagem do primeiro para o segundo Governo de Soares, em finais dos anos 70 do século passado, o advogado de Coimbra chegou a “estar indigitado durante três dias” como ministro da Justiça, funções que Almeida Santos iria cessar.

No entanto, veio a ser ministro dos Assuntos Sociais. Naqueles dias de transição, conversou muito com o ainda titular da pasta da Justiça, confidenciando-lhe que pretendia criar um Serviço Nacional de Justiça.

“Conta comigo. Mas vê lá no que te metes, rapaz!”, terá advertido Almeida Santos, que tinha concretizado recentemente a sua adesão ao PS.


Agora, presidente honorário do PS, Almeida Santos não foi fundador do PS.

“Foi uma pessoa muito influente na história do Partido Socialista desde o seu início, embora não tenha sido um dos seus fundadores, e foi uma pessoa muito influente também na governação do país, porque foram produzidas por ele muitas das leis na altura em que esteve no Governo”, disse à agência Lusa, Arons de Carvalho.

Tal como “foi uma pessoa muito marcante, muito influente nos governos de que fez parte, mesmo não tido sido primeiro-ministro não deixou de ter uma grande influência sobre os diferentes governos do Partido Socialista”, sustentou.


Almeida Santos teve uma vida política muito preenchida. Foi ministro e foi Presidente da Assembleia da República, a segunda figura do Estado, conselheiro de Estado, mas não foi primeiro-ministro.

O atual presidente do PS recordou-o com emoção. Carlos César lembrou Almeida Santos como "um pedagogo, um conselheiro", que, "na sua bonomia deu corpo a muitas gerações no PS que deram continuidade e sentido renovatorio ao PS ao longo destes últimos 40 anos".

"Normalmente, tinha razão ou acabava por ter razão, o que fazia com que lhe déssemos razão, mas Almeida Santos devia essa deferência dos seus contemporâneos às suas enormes qualidades e à determinação proporcional que empregava sempre na defesa das suas convicções e dos seus pontos de vista", disse.

"Quisemos que ele fosse o nosso presidente honorário, querendo com isto dizer-lhe que ele é, foi e será sempre nosso presidente para sempre", sublinhou Carlos César.


A antiga presidente do partido e candidata à Presidência da República, também estava esta terça-feira consternada com a morte do histórico socialista. Visivelmente emocionada, Maria de Belém Roseira referiu-se a Almeida Santos como "um homem de grande dimensão cultural, afetiva e humanista".

"Se morreu de coração, morreu do que tinha de melhor", disse.


Outro socialista e candidato presidencial, Cândido Ferreira, lamentou ter perdido um amigo com quem “trocava livros”.

Todos os socialistas reconhecem o papel de Almeida Santos na consolidação da democracia.

“Almeida Santos foi uma figura que marcou a política nacional por muitos anos depois do 25 de Abril. Foi um legislador notável, quer diretamente como ministro, quer como conselheiro de membros do Governo e um excecional parlamentar", recordou o antigo ministro socialista João Cravinho, sublinhando que o antigo político foi “um redator de imensa legislação que está no Diário da República”, recorda o ex-ministro socialista, João Cravinho.

"Devem-se a António de Almeida Santos algumas das traves mestras que constituíram a primeira legislação democrática. Assinalo a sua participação muito importante no processo de descolonização, mas, muito antes disso, foi também um combatente pela liberdade, um grande advogado e um jurista insigne", sustentou Augusto Santos Silva. 
 

Almeida Santos era “um amigo de África”


“Almeida Santos era um amigo. Para além de presidente do partido, que foi durante muitos anos, era um amigo. Era uma figura incontornável da nossa construção democrática em Portugal e da descolonização”, recordou Ana Gomes.

O socialista Vítor Ramalho recordou Almeida Santos como “um homem bom e um grande jurista”, mas também “um grande amigo de África e dos povos de expressão oficial portuguesa, em especial de Moçambique, onde viveu muitos anos”.

“Foi um herói da liberdade, um combatente incansável pela justiça e pelo Estado de direito. Pessoalmente, recordo como um grande amigo, pessoa sempre afável, sempre disponível e capaz de gestos de grande humanidade e também como um inexcedível camarada”, disse Silva Pereira à agência Lusa.

"Estou profundamente chocado com a morte de um grande, grande amigo, que deu tudo de si ao país e ao Partido Socialista e era uma referência gigantesca para todos os que se reveem numa sociedade mais humana e mais solidária", afirmou, em declarações à Lusa, Jorge Coelho.

“Pessoalmente, António Almeida Santos era também para mim, e é, um enorme amigo. É, de facto, uma enorme perda para o nosso país, e a sua memória perdurará por muito tempo", acrescentou o líder da delegação socialista ao Parlamento Europeu, Carlos Zorrinho. 

“O doutor Almeida Santos marcou de forma indelével as últimas décadas da nossa vida pública. Foi um lutador pela liberdade e pela consolidação da democracia. Teve um papel absolutamente essencial nos anos iniciais do nosso regime democrático”, afirmou Francisco Assis, em declarações à agência Lusa.

“Um homem de uma cultura vastíssima, uma das maiores referências da nossa vida pública e um cidadão exemplar”, afirmou Assis, sublinhando ainda que Almeida Santos era também “um homem generoso” e “muito atento ao sofrimento humano”.