O ministro da Educação, Nuno Crato, reconhece que a taxa de retenção nas escolas portuguesas é muito elevada, mas recusa uma diminuição de chumbos «de forma artificial», voltando a defender que só passa quem sabe.

«Nós estamos em sintonia com as preocupações do Conselho Nacional de Educação (CNE) no que se refere à redução da taxa de retenção. É verdade que há uma taxa de retenção muito elevada nas nossas escolas e nós temos que as reduzir», disse esta terça-feira Nuno Crato, reagindo às recomendações do CNE sobre retenção no ensino básico e secundário divulgadas na segunda-feira.

Tal como defendido pelo presidente do CNE, David Justino, também Nuno Crato quer menos retenções mas recusa um cenário de passagens administrativas: «Nós queremos que os alunos passem, mas que passem sabendo», afirmou o ministro.

Escusando-se a adiantar novas medidas para combater o insucesso escolar, admitiu que ainda existe «um trabalho muito grande que tem de continuar a ser feito» e que passa pelo acompanhamento precoce e atempado dos alunos assim que são identificadas as primeiras dificuldades.

«A nossa preocupação é reduzir a retenção, mas não de forma artificial», voltou a sublinhar, enumerando algumas medidas que já estão a ser aplicadas, tais como as horas extra para os alunos com mais necessidades e a possibilidade de criar, durante um determinado período de tempo, turmas mais homogéneas para que possam os estudantes possam ter um apoio mais específico.

Sobre a eventualidade de alterar os exames no 4.º e 6.º ano, Nuno Crato sublinhou que a «avaliação externa é uma parte essencial do incentivo ao sucesso» e lembrou o caso do ensino secundário, onde «a retenção tem baixado», em parte graças aos exames que «têm uma tradição maior, e professores e alunos se adaptaram bem à avaliação externa».

O presidente do CNE apontou as elevadas taxas de retenção de alunos como «o problema mais grave do sistema educativo», criticando a «cultura da retenção», mas também «facilitismos ou passagens administrativas».

Numa conferência de imprensa em que apresentou a recomendação do CNE ao Governo, David Justino defendeu a necessidade de combater o fenómeno que envolve cerca de 150 mil alunos no sistema de ensino (público e privado), com um custo de cerca de 600 milhões de euros (se se admitir que cada aluno custa cerca de quatro mil euros por ano).

O CNE sublinha a necessidade de dar «efetivas condições às escolas», que permitam criar «melhores condições de aprendizagem», não só por uma melhor afetação de recursos humanos, como também por uma especialização em trabalho de recuperação de alunos e libertar escolas e diretores de «solicitações de cariz burocrático-administrativo», vistas como um obstáculo a lideranças orientadas para o sucesso educativo.

A intervenção precoce é, do ponto de vista do CNE, um fator fundamental para evitar «percursos de insucesso», que acabam por se refletir sobretudo no 3.º ciclo e no ensino secundário, onde os alunos acumulam repetências.