O ministro-adjunto grego para os Assuntos Europeus, Nikos Xydakis, considerou esta terça-feira em Lisboa que a Turquia é a chave para a resolução da crise dos refugiados e disse ter encontrado em Portugal “compreensão”.

“Nas minhas deslocações a várias capitais europeias este é o momento mais feliz da minha viagem porque aqui sinto compreensão. Não vim pedir apoio, vim para pedir compreensão mútua”, referiu Nikos Xydakis, que compareceu esta terça-feira na Comissão de Assuntos Europeus do Parlamento no início de uma visita de dois dias para manter encontros com a homóloga Margarida Marques e a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa.

A crise dos refugiados, “um grande desafio para a UE” e que está a “questionar a política comum, a integridade e a unidade da Europa” ou a “sustentabilidade dos valores democráticos”, e a Turquia como a “chave” para a resolução da atual crise migratória, “porque é uma porta que se fecha e se abre”, foram aspetos sublinhados pelos ministro na sua intervenção inicial, e retomados nas respostas às questões dos grupos parlamentares.

Numa referência específica à inconclusiva cimeira UE-Turquia de segunda-feira, o ministro-adjunto grego considerou que o acordo será “difícil”, mas terá de ser concluído na próxima cimeira da União, agendada para meados de março.

“Temos de manter relações com a Turquia caso pretendamos encontrar uma solução para a crise dos refugiados”, sustentou, mesmo que recordasse a natureza específica do regime turco, e em particular do seu Presidente, Recep Tayyip Erdogan.

 

“É por vezes um pouco agressivo mas sabe o que quer para o seu país e para a sua liderança, e não é um líder que possa ser manobrado por alguns funcionários de Bruxelas”, considerou.

Para além da decisiva “questão turca”, Nikos Xydakis – antigo jornalista e chefe de redação do diário Kathimerini, onde trabalhou entre 1992 e 2014 – focalizou-se na necessidade de um “entendimento comum” na União, no funcionamento das suas “ferramentas comuns” que revelam sinais de fragilidade e com diversos Estados-membros a esgrimirem posições distintas.

“Pedimos a adoção de políticas comuns. Desde setembro que o Conselho Europeu faz acordos, mas duas a três semanas depois ninguém cumpre o que foi decidido”, referiu perante os membros da comissão.

Eleito deputado pelo Syriza nas eleições de janeiro de 2015 na região de Atenas, Xydakis foi designado de seguida ministro-adjunto da Cultura. De novo eleito para o parlamento nas legislativas de setembro, o ex-jornalista passou a ocupar a sua atual função no Executivo, tendo vindo a alterar desde então para a contínua pressão migratória sobre o seu país, e a ausência de “integridade e coesão” no espaço europeu para abordar a crise.

“Esta crise dos refugiados não é apenas humanitária, mas também uma desordem política e uma enorme ameaça para a paz e estabilidade no Mediterrâneo e na Europa”, afirmou.

O responsável grego insistiu por diversas vezes na necessidade em entender os “problemas políticos e históricos de grande dimensão com que se confronta a UE”, e enfrentar estes desafios históricos comuns “com uma metodologia, compreensão e confiança comuns, e com as nossas ferramentas comuns. E que são o âmago dos valores e princípios da UE”.

Neste vetor, e numa referência ao seu país onde em 2015 chegaram mais de 850.000 migrantes e refugiados, assegurou que os 'hotspots' – centros de acolhimento e de registo – estão a funcionar, ao contrário da recolocação destas pessoas, na maioria provenientes de cenários de conflito. “A recolocação não está a funcionar, e estas pessoas podem sentir-se como numa prisão”, alertou.

O ministro-adjunto do Governo liderado pelo partido da esquerda grega Syriza – e que manteve de seguida uma reunião com membros do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda – revelou que, em média, continuam a chegar à Grécia cerca de 2.000 refugiados por dia, com perspetivas de agravamento.

“O designado corredor humanitário através dos Balcãs está fechado. E de forma realista, não vejo que país poderá aceitar estabelecer um novo corredor”, admitiu.

“Penso que a única forma é estabelecer um sistema de recolocação e reinstalação aceitável para os refugiados, um procedimento de reinstalação, e que passa pelo combate às redes de tráfico. É prioritário destruir estas redes”, concluiu.