O antigo Presidente da República Jorge Sampaio recordou esta sexta-feira Nelson Mandela, que morreu na quinta-feira em Joanesburgo, aos 95 anos, como um homem de uma «extraordinária personalidade» e de «inegável carisma» que uniu uma nação multirracial.

«Há muitas maneiras de abordar a extraordinária personalidade [de Nelson Mandela], desde logo a sua preparação, ao sair do mundo rural para a cidade, formar-se, ser advogado, passar à clandestinidade, passar de uma influência 'gandhiana' para uma luta mais dura, inclusive armada», afirmou Jorge Sampaio em declarações à Lusa.

Lembrando que 28 anos na prisão «não são propriamente cinco dias», o antigo Presidente português considerou que Mandela saiu da prisão para ser um líder «a favor do pluralismo de uma sociedade multirracial», sendo um pacificador que permitiu «reconstruir um verdadeiro país multirracial».

Para Sampaio, Mandela foi «um exemplo único» num continente «difícil», nomeadamente pela forma como o poder foi tomado nos países africanos.

Jorge Sampaio recordou também que Mandela «evitou um banho de sangue», quando muitos «perseguidores do apartheid tentaram reagir» e lembrou a relação do líder com o antigo presidente sul-africano Frederik de Klerk.

«Não podemos esquecer a figura de De Klerk, parceiro que percebeu que a mudança tinha de existir e que estava diante de uma figura carismática como Mandela», afirmou, considerando este como o «pai da nação plural» que é hoje a Africa do Sul.

Sampaio sublinhou ainda que Mandela foi um protetor de minorias «fossem elas quais fossem» e lembrou o seu «inegável carisma» quando este, no campeonato do mundo de râguebi, foi cumprimentar a equipa ícone da sociedade branca da África do Sul e fez «uma reconciliação à frente de centenas de milhar de pessoas ou milhões», qualificando a atitude de «extraordinária com vontade de unir a complexa sociedade sul-africana».

Em relação ao futuro da África do Sul, Jorge Sampaio defendeu não ser agora a altura certa para se pensar nos «problemas complexos que ainda existem na sociedade», mas sim para renovar a mensagem de Mandela, acreditando que a sua inspiração «tem de continuar», como regista a Lusa.

Nelson Mandela, 95 anos, morreu na quinta-feira na sua residência em Joanesburgo.

Um dos políticos mais conhecidos e respeitados do mundo, Mandela, também conhecido como Madiba, esteve preso 28 anos (1962-1990), acusado de sabotagem e luta armada contra o governo racista da África do Sul e, em 1994, tornou-se no primeiro presidente negro do país, eleito nas primeiras eleições livres e multirraciais.

Mandela, que em 1993 recebeu o Prémio Nobel da Paz juntamente com Frederik de Klerk, governou a África do Sul até 1999 e tornou-se num dos principais estadistas do século, como referência na luta contra a segregação racial, e visto pelos seus compatriotas como o patriarca da «nação do arco-íris».