O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, considerou hoje que Portugal "perdeu muito" nos últimos anos por ter optado por "alinhamentos unilaterais", defendendo que o país deve "convergir em interesses" com vários países europeus.

"É a coisa mais normal que, do ponto de vista de política europeia, nós tenhamos capacidade de ter relações e convergir em interesses, seja com a Alemanha, com a Grécia, com a Itália, com a Suécia, com a Finlândia, com a Dinamarca, e outros", disse o governante, durante uma audição na comissão parlamentar de Assuntos Europeus.

Esta política conduzida pelo atual Governo português parte de uma constatação, que fazemos e só nos responsabiliza a nós, do muito que Portugal perdeu nos últimos anos quando se colocou em alinhamento, esses sim apenas unilaterais, e apenas na posição de seguidismo às determinações do poder do momento. Esta política europeia para defender os interesses nacionais precisa de maior plasticidade, que procuramos concretizar", sustentou.

Santos Silva respondia ao deputado social-democrata Duarte Marques, que considerou que o Governo, em termos de política externa, tem uma "estratégia que não é coerente, mas oportunista" e "dá ideia que quer estar bem com todos, com Deus e o Diabo".

O deputado do PSD criticou em particular que Portugal se "cole" à Grécia, numa alusão à recente visita do primeiro-ministro, António Costa, a Atenas, enquanto o centrista Nuno Magalhães sublinhou que o primeiro-ministro grego é "o campeão da austeridade" e defendeu: "Portugal não é, não foi e espero que não seja a Grécia".

O socialista Vitalino Canas afirmou que o PSD "andou quatro anos e continua na incessante busca para encontrar Deus e o Diabo", mas, considerou, "é mais inteligente a política que o Governo tem vindo a seguir, que é mais laica e menos divisiva na União Europeia".

Na audição, que foi dominada pelo debate sobre a crise dos refugiados, o ministro comentou, a propósito da agressão a um cidadão português na Polónia, que o caso está a ser acompanhado pelas autoridades diplomáticas locais.

"Não sei o que é pior, se um português ser atacado ou ser atacado por parecer muçulmano. Não pode ser atacado em qualquer circunstância", referiu.

Questionado pela deputada do PSD Rubina Bernardo sobre o estado das negociações sobre o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês), depois de o secretário de Estado do Comércio Externo francês ter afirmado hoje que um acordo está "mais" longe", Santos Silva considerou que estas declarações "devem ser interpretadas no quadro de alguma pressão negocial sobre os EUA, tendo em conta a viagem do Presidente [norte-americano, Barack] Obama à Europa e a necessidade de haver passos consistentes ainda nesta administração".

Se "se esses passos vão ser concretizados ou não, neste momento depende mais dos norte-americanos que dos europeus", adiantou.

Portugal é "favorável à parceria", reiterou o ministro, que salientou que "a economia portuguesa sai muito favorecida e que é do interesse da Europa manter uma ligação forte com os EUA e manter o laço atlântico a funcionar".

Questionado por Isabel Pires (Bloco de Esquerda) e por Ana Mesquita (PCP) sobre o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, marcado para junho, o ministro dos Negócios Estrangeiros concordou com a deputada comunista na ideia de que o povo britânico é soberano na sua decisão, mas salientou que, qualquer que seja a decisão, deve "servir de motivo para um novo impulso na construção europeia".