As recentes declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, sobre os portugueses que partiram para a Síria para lutar pelo Estado Islâmico não terão caído bem dentro do ministério da Administração Interna (MAI), com Miguel Macedo a considerá-las «inaceitáveis».

Segundo escreve esta sexta-feira o «Diário de Notícias», o ministro da Administração Interna não gostou que Machete tivesse revelado, numa entrevista à Rádio Renascença, que tinha conhecimento de «dois ou três portugueses, sobretudo raparigas» que estavam arrependidas de ter partido para a Síria e queriam regressar.

Durante a reunião de Conselho de Ministros desta quinta-feira, Miguel Macedo terá lembrado Rui Machete que as questões ligadas ao terrorismo eram da competência do seu ministério, e que «apenas» ele, como ministro do MAI, se pronunciava sobre estas temáticas.

Miguel Macedo também terá salientado os riscos das informações reveladas, nomeadamente a nível do alarme público que podem vir a causar.

Ainda segundo o «Diário de Notícias», ao revelar que são entre 12 a 15 os jihadistas portugueses que combatem pelo Estado Islâmico, Machete revelou informações que o MAI tem tentado manter fora da comunicação social, que tem tentado obtê-las, sem grandes sucessos, junto do ministro da Administração Interna.

Rui Machete defendeu-se das críticas e garante que não revelou quaisquer informações privilegiadas. Informação confirmada pelo ministro da Presidência, Luís Marques Guedes.

«A indicação que eu tenho é de que o senhor ministro não se referiu a nenhuma matéria classificada», disse no briefing aos jornalistas.

Porém, um perito em segurança ouvido pelo DN afirmou que «tecnicamente as informações reveladas pelo senhor ministro podem não estar classificadas simplesmente porque ele nem deu tempo para esse procedimento. Se as recebeu das famílias, não as comunicou às entidades competentes, como deve acontecer em matérias desta sensibilidade».

O ministro Rui Machete reagiu à primeira notícia do DN sobre a matéria, lançada ontem, e enviou uma carta ao jornal onde nega que tenha divulgado qualquer «informação secreta» e onde recusa ter divulgado «qualquer pormenor que permita identificar pessoas concretas» na sua entrevista.

«Não existe na entrevista que dei à RR qualquer referência, qualquer pormenor que permita identificar pessoas concretas» afirma o ministro na carta, publicada na edição de hoje. 

Miguel Macedo escusou-se a comentar o assunto

O ministro da Administração Interna escusou-se a comentar as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, acrescentando que não divulga matérias classificadas.

«Não vou divulgar informações que tenho sobre essa matéria ou outra qualquer matéria classificada», afirmou Miguel Macedo depois de questionado pelos jornalistas sobre se tinha informações de portugueses a quererem deixar o Estado Islâmico, no final da cerimónia do 6.º aniversário da Unidade de Controlo Costeiro da GNR, que decorreu em Lisboa.

«Nós estamos atentos e vigilantes, num esforço que é partilhado, conjunto e internacional, e que é vital, que é o de troca de informações para assegurarmos que tudo o que se possa fazer, deva fazer e tem de ser feito nesta matéria, se faça», sublinhou Miguel Macedo.

Já sobre a notícia avançada pelo «Diário de Notícias», o ministro disse que a informação não representa o que aconteceu.

«Não vou fazer nenhum comentário sobre essa matéria. A única coisa que quero dizer é que a notícia que hoje veio a público sobre essa matéria, nos termos em que veio a público, não tem qualquer adesão com aquilo que, alegadamente, se terá passado», frisou Miguel Macedo.

Quando questionado sobre se ficou revoltado com as declarações do seu colega de Governo, o ministro da Administração Interna optou por elogiar Rui Machete.

«Não (fiquei zangado nem revoltado). Quero aliás dizer sobre o ministro dos Negócios Estrangeiros que ele é credor do reconhecimento de todos, pois, no culminar de um processo que foi longo, que começou num Governo e que culminou agora, ele e toda a estrutura diplomática do país conseguiram um importante êxito para Portugal que resultou na eleição para o Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas (…)», disse Miguel Macedo.

PS quer audição para discutir declarações «irresponsáveis» de Machete

O PS pediu na quinta-feira a audição, à porta fechada, do chefe da diplomacia portuguesa no parlamento, por considerar «irresponsáveis» as declarações do titular da pasta dos Negócios Estrangeiros e diz que se poderá estar perante um caso de divulgação de informação sigilosa.

O ministro dos Assuntos Parlamentares, Marques Guedes, afirmou no final do Conselho de Ministros que, na sua opinião, Rui Machete «não se referiu a nenhuma matéria classificada».