Os governos regionais dos Açores e da Madeira iniciam no sábado, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, um encontro histórico que deverá marcar um novo ciclo nas relações entre os dois executivos, depois de anos de “costas voltadas”.

“Nós preferimos salientar o caráter histórico desta visita, deste encontro, que, certamente, marcará um novo ciclo no relacionamento, na proximidade, na amizade entre estas regiões e a sua atuação conjunta em face de muitos desafios que têm em comum, na região, nacionais e europeus”, disse o subsecretário regional da Presidência para as Relações Externas dos Açores, Rodrigo Oliveira, na apresentação do programa da visita.


Em agosto do ano passado, o chefe do executivo açoriano, o socialista Vasco Cordeiro, convidou o presidente do Governo Regional da Madeira, o social-democrata Miguel Albuquerque, a visitar o arquipélago, convite que “foi prontamente aceite”, referiu na ocasião Rodrigo Oliveira.

O subsecretário regional adiantou que Vasco Cordeiro “entende ser possível e desejável um reforço da articulação de posições entre as duas regiões autónomas nas mais diversas matérias, para um melhor conhecimento mútuo dos desafios em que estão envolvidas a nível regional, nacional e europeu”.

Também o secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus da Madeira, Sérgio Marques, salientou o caráter histórico da iniciativa que visa “reatar o diálogo”, visando “falar a uma só voz” junto da União Europeia e do executivo de Lisboa.

“Os nossos dois arquipélagos têm andado de costas voltadas um para o outro e o Governo [da Madeira] entende que é fundamental reatar a cooperação, não só política, mas também económica com o arquipélago irmão dos Açores”, disse Sérgio Marques ao anunciar o encontro.


O governante defendeu que “os dois arquipélagos têm de se aproximar, cooperar, voltar a dar as mãos, porque ambos podem ganhar de novo com esse estreitamento e reaproximação”.

A visita do executivo da Madeira começa no sábado, às 19:00 locais, com um encontro oficial entre os dois presidentes dos governos, em Ponta Delgada, São Miguel, ilha onde decorre o segundo dia de trabalhos, no domingo.

Neste dia, está prevista a visita a uma unidade transformadora de leite, à central de produção geotérmica e ao Centro de Monitorização e Investigação das Furnas, local onde decorre uma reunião entre os dois executivos. A comitiva da Madeira terá ainda oportunidade de reunir setorialmente e com representantes socioeconómicos dos Açores.

Na segunda-feira, a visita prossegue na ilha do Pico, estando agendada uma deslocação ao Museu do Vinho e à zona classificada da Paisagem da Cultura da Vinha, e depois no Faial, com uma deslocação ao Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, mas antes a apresentação de cumprimentos à presidente do parlamento regional.

Ainda neste dia, mas já em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, é assinada uma declaração conjunta entre Vasco Cordeiro e Miguel Albuquerque, assim como protocolos de cooperação, a que se segue um jantar oficial.

A comitiva da Madeira regressa ao Funchal na terça-feira.

Acompanham Miguel Albuquerque no encontro nos Açores Sérgio Marques e os secretários regionais do Ambiente e Recursos Naturais, e da Economia, Turismo e Cultura, enquanto Vasco Cordeiro terá em permanência, além de Rodrigo Oliveira, a presença dos secretários do Turismo e Transportes, da Agricultura e Ambiente.
 

Alberto João Jardim elogia encontro

O ex-presidente do Governo da Madeira, Alberto João Jardim, aplaude o retomar das cimeiras entre a região e os Açores, mas alerta que os encontros só têm sentido se constituírem uma frente autonómica face à República.

"Eu espero que estas cimeiras sirvam para os dois governos perspetivarem quais vão ser as batalhas legítimas que, no futuro, vão ter que fazer no seio do Estado português. Se é para aceitar o sistema tal como ele está montado, então é uma perda de tempo", disse à agência Lusa, felicitando os dois executivos por retomarem "uma iniciativa que é fundamental para o peso das regiões autónomas na vida portuguesa".


"Aliás, estou convencido que os grandes sucessos que os Açores e a Madeira conseguiram durante o século XX têm muito a ver com estas cimeiras e com o peso que a aliança entre os dois governos tinha em Lisboa", observou.

Iniciadas pelo ex-presidente do Governo Regional dos Açores Mota Amaral as cimeiras apareceram, segundo Alberto João Jardim, porque "era fundamental uma frente não contra a República, mas uma frente de reforço perante a República".

"Eu acho que se as cimeiras se tivessem mantido, primeiro, já teria havido uma revisão constitucional de acordo com as pretensões das duas regiões autónomas; segundo, nunca a dívida da Madeira teria sido tratada da maneira separatista como Passos Coelho a tratou", opinou.


Alberto João Jardim referiu que "foi o Governo de Carlos César, nos Açores, que interrompeu estas reuniões”, embora tenha havido uma com o socialista no Funchal.

"Carlos César tinha uma posição muito subordinada ao PS do continente e julgo que ter acabado na altura as cimeiras foi no sentido de aumentar a pressão que os governos Sócrates faziam sobre a Madeira", indicou.

Já as relações entre os executivos de Jardim e Mota Amaral, acrescentou, “foram sempre excelentes”.
Para o ex-governante, a ausência de encontros enfraqueceu ambos os arquipélagos.