O PSD e CDS-PP aprovaram esta quarta-feira o relatório da comissão parlamentar de inquérito sobre material militar, aceitando «uma maioria das sugestões de alteração do PS», embora criticando a «política-tabloide» e «insinuações» da oposição.

O documento de cerca de 400 páginas, que mereceu duras críticas de PS, PCP e BE, os seus votos contra e um texto alternativo intitulado «Relatório viciado, Inquérito inacabado», vai ser alvo de apreciação em sessão plenária da Assembleia da República, a 17 de outubro.

«Não foi bom árbitro» ou «completamente parcial» foram ainda alguns dos julgamentos dos deputados do BE, João Semedo, e do PCP, Jorge Machado, sobre o desempenho na condução dos trabalhos, ao longo de cerca de quatro meses, do presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito aos Programas de Aquisição de Equipamentos Militares (aeronaves EH-101, P-3 Orion, C-295, F-16, torpedos, submarinos U-209 e blindados Pandur II), o democrata-cristão Telmo Correia.

A deputada-relatora, a social-democrata Mónica Ferro, reconheceu algumas gralhas e imprecisões factuais, mas não aceitou, por exemplo, a expressão «perguntas não respondidas», considerando que o que defendeu foi que «nenhuma pergunta ficou por fazer e não respostas por obter».

«Não posso responder por perguntas que não foram feitas», disse, esclarecendo ir «aceitar uma maioria das sugestões do grupo parlamentar do PS». Mónica Ferro afirmou compreender «que as conclusões podem não ter sido as que os deputados da oposição pretendiam», mas entendeu que «a Assembleia da República cumpriu a sua função».

O parlamentar do PSD António Prôa elogiou o trabalho da sua colega de bancada, dos funcionários e do presidente da comissão e expressou «repúdio» pelas afirmações e atitude de PS, PCP e BE.

«Os partidos da oposição começaram os trabalhos com um preconceito do qual não se souberam distanciar. Os factos vieram a desmentir o conjunto de insinuações e afirmações baseadas em notícias não factualizadas. O PS, pela primeira vez na história, deu-se ao papel de ficar à margem do sentido de responsabilidade e pôs em causa esse seu património. Faz uma espécie de política-tabloide e isso só lhe fica mal», disse, referindo-se ao socialista José Magalhães e seu passado de militante comunista, com o epíteto de «práticas estalinistas».

O democrata-cristão Filipe Lobo d'Ávila frisou «o incómodo sentido pelo PS» ao concluir-se que «foram governos socialistas, afinal, os responsáveis pela maioria das matérias», pois «todos estes programas começaram, tiveram desenvolvimento ou foram concluídos» por executivos «rosa».

«É um conceito estranho de fuga aquele que alguns querem imputar à maioria. Apesar das especulações, insinuações e, não raras vezes, das suspeições que se quiseram lançar, a comissão tem de se cingir aos factos, que falam por si», disse.

José Magalhães voltou a questionar a vantagem, para a maioria PSD/CDS-PP, de manter a «dúvida eterna», nomeadamente sobre os antigos responsáveis políticos Paulo Portas e Durão Barroso, e perspetivou que «o inquérito continua», agora na comissão parlamentar encarregada de investigar o caso do Grupo Espírito Santo.

«Usaram a maioria parlamentar, a força, para impedir o inquérito e a descoberta da verdade, numa tentativa de apagar a Historia e ilibar responsáveis», sublinhou o comunista Jorge Machado, repisando as palavras «embuste» e «fraude» e a falta de inquirição do ex-cônsul honorário de Portugal em Munique Jurgen Adolff.

O bloquista João Semedo considerou que «as conclusões da relatora são tendenciosas, parciais e, mesmo, mentirosas» porque «só aceita, admite e reconhece factos e situações que sustentam a versão que quer ver consagrada» e «omite, esconde e desvaloriza informação e opinião que contraria a narrativa que quer ver imposta».