O embaixador e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros António Martins da Cruz condena a atuação do Governo grego, que acusa de querer desrespeitar os tratados europeus e de andar aos "ziguezagues". 

"O problema aqui não é a Democracia. Fala-se nesse argumento, mas somos todos democracias é um dado adquirido. Se não fôssemos, não éramos membros da União Europeia. O problema é do governo regro. A Europa tem regras. Isto não é à vontade do freguês"


No programa "Política Mesmo", na TVI24, o embaixador disse que quando um país assina o Tratado de Maastricht e o Tratado Orçamental, "o governo que vier a seguir tem de aceitar". 

"Essa do eu faço e aconteço, não pode ser na Europa, tem uma soberania partilhada e regras que têm de ser cumpridas. E outra regra que não está escrita e que é aceite por todos os membros: o consenso é mais importante do que as posições dos governos". Ou seja, "não podem haver nem vencedores nem perdedores, sobretudo não pode haver perdedores".

Martins da Cruz defendeu que a Europa não se constrói com "radicalismos" e, aludindo aos ideais do Syriza, tornou o dilema simples de resolver: "se fizermos parte de um clube e se não aceitarmos [as regras], saímos do clube".

De qualquer modo, continua a acreditar que a Grécia é "essencial" para o euro e que pode haver acordo. O embaixador lembrou que, do ponto de vista geopolítico, tanto os países europeus como a China ou Angola, por exemplo, estão de olho no que está a acontecer, acompanhando a situação com "muita preocupação", por causa dos investimentos que têm nos países com a moeda única. 

Com as negociações paradas até ao referendo de domingo, está tudo "pior do que estava no início destas negociações, porque a Grécia, seja qual for o resultado, tem neste momento margem de manobra muito mais reduzida".

"E porquê? Porque a Grécia, infelizmente, assumiu uma estratégia aos ziguezagues, que ninguém entendeu na Europa. Este governo da Grécia não foi aos avanços e recuos, foi aos ziguezagues. Seja a resposta sim, seja a resposta não, o que é que a Grécia vai ter na segunda-feira que vem? Vai ter a troika, vai ter de negociar um novo resgate e ter condições nesse programa que serão mais difíceis do que há 10 dias"